Desanexação de Milheirós de Poiares
Concelhos vizinhos em “guerra aberta” por Milheirós
10-10-2018 | por António Gomes Costa
De um lado, votos a favor. Do outro, contra. Depois de entregue o Projecto-Lei na Assembleia da República, com o objectivo de desintegrar a freguesia de Milheirós de Poiares do concelho de Santa Maria da Feira e anexá-la ao de S. João da Madeira, muitas são as vozes contraditórias. Se S. João da Madeira está disposta a aceitar a freguesia, os feirenses não querem perder território.
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A polémica está instalada entre Santa Maria da Feira e S. João da Madeira, por causa da freguesia de Milheirós de Poiares, que ganha agora novos contornos com a criação de um projecto-lei entregue por deputados socialistas e bloquistas na Assembleia da República, com o objectivo de desintegrar a freguesia de Milheirós de Poiares do concelho da Feira e anexá-la à cidade de S. João da Madeira.
Como lhe demos conhecimento na última edição, o documento está disponível no site da Assembleia da República e enumera um vasto conjunto de argumentos favoráveis à desintegração desta freguesia feirense do território de Santa Maria da Feira. Mas as vozes dividem-se. Uns a favor e outros contra. Do lado dos sanjoanenses, parecem não existirem dúvidas quanto à vontade em acolher Milheirós, uma vez que “o que está em causa é uma aspiração antiga da população de Milheirós de Poiares, que tem sido expressa em diversas ocasiões, nomeadamente através de referendo validado pelo Tribunal Constitucional, que registou uma votação de 80 por cento a favor da integração da freguesia no concelho de S. João da Madeira”, revela Jorge Vultos Sequeira, presidente do município de S. João da Madeira.
O autarca reforça que a Assembleia de Freguesia de Milheirós de Poiares também “tomou deliberação no mesmo sentido e foi entregue no Parlamento uma petição pública com mais de 5 000 assinaturas, em que é defendida a integração de Milheirós de Poiares no concelho de S. João da Madeira”.
Com a vontade desta anexação, Jorge Vultos Sequeira diz também que “sendo essa a vontade de Milheirós de Poiares e a deliberação da Assembleia da República, S. João da Madeira está disponível para acolher essa mudança territorial e tudo fará para promover o desenvolvimento harmonioso de Milheirós de Poiares, de S. João da Madeira e da região, num quadro de manutenção das boas relações entre os municípios envolvidos”, enfatiza.

“Episódio mau na vida destas duas cidades”

Do lado de Santa Maria da Feira, Emídio Sousa, presidente do município, não esconde o descontentamento e revela que “não admito que brinquem com o concelho da Feira e estamos perante uma brincadeira de muito mau gosto, pois em democracia nunca existiu uma lei destinada a um caso concreto quando não existe consenso entre os dois municípios”. O autarca garante que quer continuar a ter boas relações com S. João da Madeira, “como sempre tivemos”, uma vez que existem “vários projectos e interesses comum de toda a região” e assegura que vê nesta cidade uma terra “amiga, vizinha”, quer do ponto de vista pessoal, pois “foi aí que estudei, quer das múltiplas pessoas que todos os dias interagem nos dois territórios”. Mas o autarca feirense receia que, a acontecer esta alteração, o “clima de cooperação que tem existido até aqui deixe de fazer sentido e não exista condições para continuar”. Emídio Sousa quer acreditar que se está a viver um “episódio mau na vida destas duas cidades” e espera que consigam continuar a cooperar no futuro.
Emídio Sousa esteve, na passada terça-feira, em Lisboa, onde reuniu com os diferentes grupos parlamentares, apelando a que chumbem o projecto-lei que propõe a saída freguesia de Milheirós de Poiares do concelho da Feira.

«Com Milheirós ao peito»

Na passada sexta-feira, dia 5, centenas de milheiroenses e habitantes de outras freguesias do concelho da Feira concentraram-se no Estádio Marcolino de Castro para ali manifestarem o seu descontentamento com a integração de Milheirós de Poiares no concelho de S. João da Madeira. Numa grande faixa exibida durante a primeira parte do jogo do CD Feirense, lia-se «Com Milheirós ao peito».
No projecto-lei assinado pelos deputados Fernando Rocha Andrade (PS), Moisés Ferreira (BE), Rosa Maria Bastos Albernaz (PS), Filipe Neto Brandão (PS), Porfírio Silva (PS), Carla Tavares (PS) e Jorge Costa (BE) pode ler-se que esta integração é «uma antiga ambição destas comunidades, que se confundem nas relações diárias e que somente se separam pelo concelho a que pertencem, traduz uma opção racional de gestão do território». O objectivo é que a respetiva lei entre em vigor no dia 1 de Janeiro de 2019, tendo, por isso, de ser votada a muito curto prazo. 
Recorde-se que, em 2017, a população de Milheirós submeteu ao Parlamento um abaixo-assinado com 5 300 subscritores favoráveis à desanexação e exigindo a análise do assunto pelos deputados da nação. Mais tarde, o município feirense apresentou a sua própria petição, com cerca de 27.150 assinaturas contrárias à medida, entre as quais 900 de moradores de Milheirós.

“É um absurdo. É como tirar um filho aos pais”

O deputado do BE, Moisés Ferreira, voltou a reforçar que esta integração de Milheirós em S. João da Madeira é “traduzir numa iniciativa legislativa aquilo que é a vontade popular”, já que o referendo feito em Milheirós de Poiares “foi único no país, reconhecido pelo Tribunal Constitucional e validado pela Comissão Nacional de Eleições, teve um resultado inequívoco a favor da transferência de concelho”, enfatiza o deputado da Assembleia da República.
O bloquista assume que o seu partido “sempre disse” que qualquer reforma administrativa do território deve ser baseada na vontade popular. Por isso, “defendemos a realização de referendos sobre as propostas de extinção de freguesias. O PSD e o CDS, pelo contrário, impuseram um novo mapa de freguesias contra a vontade das pessoas. Em Milheirós de Poiares, a população foi ouvida. Deve ser respeitada”, remata.
António Pinho, de 63 anos entende que o decreto-lei “não vai ser aprovado” na Assembleia. “Existem partidos contra esta passagem de Milheirós para S. João da Madeira”, pois na “hora da verdade não vão existir votos suficientes”. Este sanjoanense diz perceber que a população feirense não queira perder a sua freguesia, mas considera que grande parte da população de Milheirós de Poiares “passa mais tempo em S. João da Madeira do que na Feira”.
Rosário Fernandes vive na freguesia de Fornos, Santa Maria da Feira, e foi uma das muitas pessoas que, na passada sexta-feira, esteve no estádio de futebol a manifestar o seu apoio favor da não integração desta freguesia em S. João da Madeira. “É um absurdo. É como retirar um filho aos pais”. Esta feirense afirma ainda que não gostou “do comportamento da PSP depois do intervalo, que mandou retirar a faixa”.
Apesar de ser uma luta de há muitos anos, “já ficou provado que Santa Maria da Feira não está disponível para esta alteração e essa decisão tem que ser respeitada”, diz esta feirense.
Em Milheirós de Poiares encontrámos Maria Gomes. “Nós somos mais de S. João da Madeira do que da Feira. Tratamos das nossas coisas todas nesta cidade, pois, além de ser mais perto, é mais rápido”, assume. Quanto ao futuro, diz que gostava de mudar para S. João da Madeira, uma vez que “toda a minha família trabalha lá, o acesso de transportes públicos é melhor, o Hospital é mais perto e frequento as piscinas municipais”. Acusa ainda o município de Santa Maria da Feira de “pouco ter feito por esta freguesia que, durante anos, esteve esquecida”. 

Comentários
Anónimo | 13-10-2018 13:38 "Enfatiza", "enfatiza", "enfatiza"...
Normal a parcialidade, num jornal local. Mas no sentido adverso!...
Enfim, talvez de acordo com a pele de quem escreve.
Lamento.
Mas não enfatizo. Consegui dominar-me e não me exprimir... enfaticamente.
Anónimo | 12-10-2018 18:08 Tendenciosidade repetida
O jornal deveria escalar um funcionário isento para noticiar matérias desta índole. Confrangedor. Para além de texto altamente parcial, repugnantes os tendenciosos título e sub-títulos.
Repetidamente, em O Regional, assuntos de índole regional são escritos enviusadamente - em prejuízo de S. João da Madeira - por funcionário(s) não conseguir(em) despir a (sua) camisola feirense.
Lamento de ter, tão directa como francamente, que deixar este comentário público, face a tão abusivas acções.
Anónimo | 11-10-2018 19:36 mentira
era importante não embarcarmos em "espalhar" notícias quando não se confirmam as fontes. É absolutamente mentira, que estivessem "centenas de milheiroenses" no Estádio Marcolino de Castro. Eram dezenas... e poucas.
Eu estive lá, e moro em Milheirós de Poiares.

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