Padre Álvaro Rocha faz balanço de um ano à frente da paróquia
“Difícil, difícil, num primeiro ano é o conhecimento das pessoas”
10-10-2018 | por António Gomes Costa
Um ano depois de ter chegado à paróquia de S. João da Madeira, o Padre Álvaro Rocha revela que se tratou de um ano “intenso”, que não lhe deu tempo para “parar e fazer uma avaliação”, mas assume que tem sido bem recebido. Um comunicador nato, assume que a “diversidade” é aquilo que mais o fascina na cidade. Quanto às dificuldades, aponta a falta de tempo para dialogar com as pessoas e assume que um padre não constrói nada sozinho.
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Jornal ‘O Regional’ - Faz este mês um ano que chegou à paróquia de S. João da Madeira. Tem sido bem recebido?
Padre Álvaro Rocha - Antes de mais, uma saudação ao jornal ‘O Regional’ e a todo o seu corpo de leitores. Deixai-me enviar, por intermédio do jornal, um grande abraço a todos os sanjoanenses. Na realidade, completa-se a 22 de Outubro próximo um ano de trabalho pastoral em S. João da Madeira, tão intenso que não me deu tempo para parar e fazer uma avaliação. Posso, mesmo assim, referir que me tenho sentido bem recebido. Não sinto nada de hostil, seja em relação a mim, seja à Igreja.

Mas num primeiro ano tudo é sempre novidade…
É verdade. Lembro que logo depois de entrar na paróquia, houve o dia de fiéis defuntos e aí, pela primeira vez, houve um contacto geral com a cidade. Desde aí, muitas outras experiências me enriqueceram, tendo sido também um desafio à minha capacidade de acolhimento, de diálogo, de colaboração e de iniciativa. Foi assim no primeiro ano e acho que continuará a ser sempre.

O que mais o fascina nesta cidade?
A diversidade. Eu gosto muito de variar, de não fazer sempre o mesmo e esta cidade permite-me esta experiência. Agora estou com os pais, depois com idosos ou doentes, logo mais é com as crianças. Tanto estou com catequese, como com adultos, tanto atendo noivos, com quem contacto pela primeira vez, como estou com responsáveis dos grupos paroquiais a programar trabalho.

Mas o que tem sido mais difícil?
Difícil, difícil, num primeiro ano é o conhecimento das pessoas. São muitos os paroquianos e porque não tenho tido muito tempo para dialogar e conviver, o que me permitiria acelerar o conhecimento. Mas tudo se vai ultrapassando.

Um ano depois continua a dizer que a “paróquia faz o padre e o padre faz a paróquia”?
Sim, continuo. Eu não gosto de valorizar chavões, porque servem para o que servem, mas acho que continua ser verdade. Mas também é preciso dar tempo ao tempo.


“Eu não construo nada só”

Mas que paróquia é a que está a construir na cidade?
Eu não construo nada só. Uma paróquia é um corpo e o corpo tem de ter capacidade de se regenerar e adaptar. Penso muito nas famílias, que são o nosso maior tesouro e, ao mesmo tempo, o maior desafio. Preocupa-me muito que a sociedade ocidental se esteja a construir (porque a construção da sociedade é permanente), retirando a família do centro. Neste sentido, gostaria que as famílias cuidassem muito delas próprias: pensassem no tempo para o encontro, para a festa, para se estruturarem em valores e, assim, deixarem um legado muito valioso para os mais jovens.
Também, por causa disto, me preocupa pensar com algum horizonte: pergunto-me muito, e sempre, o que será desta cidade e desta paróquia daqui a 20 anos! Quais serão as grandes procuras (hoje fala-se muito em sedes) de cada sanjoanense e das suas famílias. Estaremos a preparar esse tempo e os seus desafios?
O seu estilo enquanto sacerdote é diferente da do anterior abade. Mudou muita coisa no trabalho deixado pelo Padre Domingos Milheiro?
Todos somos diferentes uns dos outros e não gosto de alimentar comparações. Talvez, por se entrar em comparações, se esqueçam coisas importantes. Por que razão podemos dizer que alguém, aparentemente mais ativo, é melhor do que aquele que pensa e estuda e assim perscruta a sabedoria? Acho que nos temos de aceitar como somos e, porque a igreja é corpo de pedras vivas, é preciso fazer com que essas pedras encaixem bem umas nas outras.
Nós temos objetivos e projetos que advêm do próprio Evangelho e é esta Boa Nova que servimos e desejamos que anime todos os homens. E, a propósito desta pergunta, quero referir que me emocionou ver o padre Domingos, primeiro, a ser homenageado pela Câmara e, depois, a vir até nós na dedicação da Capela do Parrinho. O Padre Domingos não saiu a 21 outubro de 2017; o Padre Domingos continua presente (ainda que sem o ofício de pároco, porque a saúde não lho permitia) e a sua obra também. E agora alguém tem de continuar.


Mas que caminhos pretende para a igreja nesta paróquia?
Este ano, a diocese impele-nos para a missão. “Todos discípulos missionários!” E nós, na paróquia, acrescentamos uma outra palavra: Família! Quer dizer, a família é o grande sujeito da missão e é ao mesmo tempo o seu primeiro destinatário. Missão com a Família e para a Família! São estes os caminhos para a nossa paróquia.

A visita pastoral que decorreu em Maio serviu para momentos de reflexão na cidade?
Vou-lhe confessar uma coisa: tenho um número especial do Restaurar preparado para sair, mas que aguarda um texto meu, exatamente por ainda estar a refletir sobre os seus efeitos. Porque, na realidade, chegar a uma paróquia e ter uma visita pastoral é para o pároco um grande desafio. Não vou esconder que me permitiu acelerar o conhecimento da algumas realidades, mas a verdade é que poderia ter servido para envolver ainda mais grupos, movimentos e a própria comunidade em geral. Mesmo assim, acho que foi um acontecimento muito proveitoso. Aproximou uns de outros, comprometeu-nos em projetos e, agora, espera-se que os frutos possam aparecer com o tempo.
Não deixo de sublinhar a grande alegria que muitos sentiram à volta da dedicação da Capela do Parrinho, a presença do Bispo em todos os centros de culto, nos encontros com todas as franjas da população, da visita à Santa Casa e a algumas empresas, nos encontros com os grupos. Vi também grande satisfação por parte da autarquia na presença do Bispo e quisemos significar o compromisso em servir conjuntamente a cidade. Neste sentido, acho que a visita serviu para muitas reflexões que ainda estão por terminar.

Os sanjoanenses são pessoas de grande devoção?
O fundo religioso de cada pessoa é uma realidade indesmentível. O que está em causa, normalmente, não é o fundo religioso, mas o tempo e a disponibilidade interior para trabalhar esse fundo religioso. Isso varia de pessoa para pessoa. Aí a família tem uma importância marcante. Mas já me apercebi, por situações diversas, que os sanjoanenses têm esse fundo religioso. Deus não é uma realidade estranha aos sanjoanenses.


“O papel da catequese é insubstituível”


E qual é a ligação dos jovens com a igreja?
(Pausa). Pergunta difícil. Na verdade, os jovens da nossa cidade, ao chegarem ao tempo de universidade, dispersam-se por esse país inteiro. Depois a procura de trabalho leva-os a outros lugares e até países. Contacto com muitas famílias que falam dos seus jovens a trabalhar em França, Inglaterra e muitos outros países. Todo este tipo de ocupações deixa desafios à ligação dos jovens com a Igreja.
Da minha parte, da parte da Igreja, há algumas pre­ocupações: nunca es­que­cerem que nos seus caminhos Deus faz-se pre­sente; aceitarem o desafio de continuarem a crescer e a amadurecer na fé onde quer que se encontrem, já que a Igreja está presente em todos os cantos do mundo; e os nossos jovens podem contar com a sua paróquia de S. João da Madeira como porto de abrigo. Sempre.
Outra coisa será falar da experiência que os jovens de hoje fazem (ou não) de uma igreja próxima, acolhedora, capaz de os acompanhar na sua caminhada, onde há certamente muitas questões de fé que os mesmos jovens levantam. Curioso que falamos quando, por estes dias, se inicia um sínodo extraordinário dos bispos, em Roma, sobre os jovens e a Igreja. Só o facto de ser um sínodo extraordinário já diz da importância e da preocupação da Igreja relativamente aos jovens. Mais: o documento que serve de base de trabalho para o sínodo tem um enorme contributo dos jovens de todo o mundo, numa auscultação que começou há mais de um ano atrás. E no sínodo estarão jovens presentes.
A nossa paróquia está em sintonia com tudo isto. Mas há um grande desafio: abrir canais para uma maior relação entre os jovens e a Igreja.

A catequese foi sempre considerada pela Igreja como uma das tarefas primordiais. Qual é o papel da catequese nos dias de hoje?
É difícil responder em poucas palavras. Mas o papel da catequese é insubstituível. Ontem estive num encontro com os pais das crianças que começam a catequese este ano. Falámos muito disto. É um tempo cheio de enormes desafios para catequistas, famílias e comunidade em geral. Se pensarmos que a sociedade assume, enquanto corpo, cada vez menos, a sua estrutura religiosa, mais se torna imprescindível a necessidade de uma catequese viva, interpelante e fecunda.
Mas vou dar um exemplo para os que acham que a catequese basta para formação religiosa de qualquer cristão: se temos uma hora de catequese por sessão de catequese, se no ano temos aproximadamente trinta sessões de catequese, então significa que temos 30 horas de catequese por ano, ou seja, um dia e seis horas num universo de 365 dias. Isto mostra a necessidade da catequese ser algo permanente e assumido por pais e comunidade.

“Sou convictamente contra a eutanásia”


Portugal falou muito nos últimos tempos da eutanásia. É a favor ou contra?
Sou convictamente contra a eutanásia.

Quer justificar?
Em Maio último, em vésperas da votação que ocorreu na Assembleia da República, a este respeito, o nosso bispo D. Manuel Linda perguntava se sob a capa da defesa do «direito a morrer com dignidade» não se esconde o mais cruel «descarte» daqueles em quem não se está interessado e se se gasta a mesma energia e dedicação no cuidado dos anciãos e doentes que se usa para defender a «morte a pedido». E, basicamente, tem de se perguntar se, quando alguém diz que quer morrer, essa linguagem é unívoca ou não estará antes a lançar um grito de acusação àqueles que, «criminosamente», lhe negam o conforto e a proximidade afetiva, até porque, hoje, os modernos analgésicos suprimem praticamente toda a dor física.
Estas palavras sustentam a minha consideração do valor absoluto da vida, que recebemos como dom e que nos impele a dar tudo pela vida do outro. Não sei, nem gostaria de saber, até onde se iria quanto às consequências de uma liberalização da eutanásia. Uma sociedade eticamente evoluída está do lado da vida.

Há dias, um colega seu dizia que a religião está a viver um dos momentos mais graves da história recente da Igreja. Partilha desta opinião?
Eu não sei em que contexto isso foi dito. E isso importa. O que lhe posso dizer é que vejo os tempos de hoje como muito desafiantes para a Igreja. Mas a verdade é que houve outros tempos igualmente duros e fraturantes. Quando as coisas mudam, tudo abana. E, nestes tempos, cada vez muda mais depressa. Ora isso é pertinente para a Igreja e obriga-nos a uma permanente leitura e releitura dos tempos e o diálogo que supõe à nossa fé. Mas não sou pessimista!

Mas o Papa Francisco veio trazer uma maior transparência à Igreja…
Nós temos o Papa que a Igreja precisa: simples, humilde, direto, a questionar cada um de nós. Tem-nos deixado muitas questões. E quem não se questiona nunca encontrará as devidas respostas. Tem-nos ensinado a assumir os nossos erros. Mas a fazermos um caminho de conversão.

Quer com isso dizer que ele tem uma visão própria e enriquecedora?
Todos nós temos o nosso modo de pensar, de exprimir, de interpelar, de se aproximar dos outros, de falar para dentro e para fora da Igreja. Mas não haja dúvida que veio enriquecer muito a Igreja e torná-la mais sinodal. Isso é verdadeiramente um dom de Deus.

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