Em que país estamos? (II)
20-09-2018 | por Abel Paiva da Rocha
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Escrevo numa tarde soalheira de Setembro, num espaço onde alguns homens jogam umas partidas de cartas com o mesmo entusiasmo, o mesmo prazer, a mesma alienação com que, mais logo, certamente, discutirão o jogo e o resultado de um derby de futebol. Escrevo num tempo em que o Fado ganhou, de novo, estatuto de arte musical nobre, depois de ter sido muito contestado e, mesmo, perseguido no PREC e pós-PREC. Escrevo num tempo em que Fátima ganhou de novo notoriedade no âmbito do roteiro turístico internacional.
Tudo como dantes, tudo como de costume!
Quem disse que dantes, só por ser dantes..., o entretenimento do povo se resumia a Fátima, Fado e Futebol?  É bom recordar que este pressuposto foi invocado, vezes sem conta, pelos nossos intelectuais criadores da moral pós-moderna (alguns dos quais, muito provavelmente, se sentam hoje nas cadeiras do poder) para atribuir um carácter diabólico ao regime anterior ao 25 de Abril. Porém, o tempo e a reflexão sobre ele têm o condão de nos ajudar a discernir melhor a natureza das coisas para lá da espuma dos dias. Ora, a reflexão sobre aquele e este tempo aqui estão, para evidenciar de forma cristalina que tais comportamentos não se deveram, nem se devem, a um sistema político, mas sim à natureza do homem vulgar, que é também, infelizmente, a natureza de muitos homens de hoje. Que natureza? A de se deixar levar pela superfície das coisas, pelo jogo de sombras com que a realidade, simulando revelar-se, se esconde. Enfim, pela alienação. Como se mantém atual a Alegoria da Caverna de Platão!
Toda esta argumentação, para quê?
 PRIMEIRO: Para, na avaliação política, não nos deixarmos levar pela superfície, mas pela substância das coisas; o futebol, as telenovelas, os beijos, os abraços e os impulsos voluntaristas, embora façam parte da realidade e, por vezes, também nos ajudem a interpretá-la, não são a substância da política.
SEGUNDO: Para, na avaliação do exercício do poder político, valorizarmos mais a competência na prossecução do bem comum (entendido este como equilíbrio justo sustentável, o qual tem em conta o esforço de cada um, partindo de um mesmo ponto comum: socialismo de partida, não de chegada; temos o direito de nascer iguais em dignidade e direitos, mas também temos o direito de morrer diferentes em função do nosso contributo para a Humanidade) do que a gestão táctica da correlação de forças, em função de objetivos imediatos pessoais ou de grupo.
TERCEIRO: Para tomarmos consciência, e não esquecermos, de que o poder político, os partidos políticos e os políticos, quando prometem, não dão do que é seu; apenas gerem o que é de todos. Por isso, o melhor não é necessariamente aquele que, no jogo do leilão “democrático”, promete dar mais (ou, mesmo, dá mais) à minha classe, à minha profissão, à minha terra ou, até, a mim próprio.  
QUARTO: Para defendermos que, se a riqueza material “não cai do céu”,  ela deve ser distribuída em função das necessidades de cada um e do contributo justo de cada um para a sua criação; a distribuição da riqueza não pode estar dependente de humores de políticos, de partidos ou de outros interesses conjunturais...
QUINTO: Para tomarmos consciência de que uma solidariedade verdadeira é aquela que se estende do passado ao presente e do presente ao futuro; é a que se estende pelo tempo e pelo território, que abraça as classes sociais e é global.
No entanto, estamos ainda num país em que, conforme as informações da Comunicação Social:
Um  “juiz disse ainda à (sua) mulher que o seu dever era estar na cama e que se iria arrepender porque ‘os juizes mandam nesta m... toda”; não cabe aos juizes apenas interpretar a lei?
O Moreirense é condenado em 2018 ficando agora suspenso da Primeira Liga por corrupção ocorrida na época de 2011/2012! não será demasiado tempo para esta tomada de decisão?
A própria Comunicação Social, sobre o problema dos e-mails do Benfica, subtil e rapidamente se deixa arrastar da questão da verdade desportiva para a de saber quem “sacou”os e-mails, com que legitimidade, com que legalidade e a troco de quê; da essência das coisas passa-se para o processo...
Aos Professores é prometido o que manifestamente não é possível dar, sabendo-se que não é possível. De qualquer modo, uns e outros reclamam que a lei está do seu lado. Em que ficamos? Quando acabamos com este jogo de luz e sombra na dinâmica política ?
Aos tarefeiros oferece-se um trabalho parcial pago a 3,82 euros líquidos, à hora. Onde está a segurança no trabalho, se se proclama aos quatro ventos que a haja?
Há Partidos com pouca representatividade eleitoral que se põem em bicos de pés para ir para o Governo: “o ... está em condições de assumir qualquer representatividade” e “aqui estamos para todas as responsabilidades”. O que é que importa mais? Assumir o poder ou demonstrar que se merece assumi-lo, pela adequação e oportunidade das propostas? Por estas afirmações é possível avaliar as prioridades dos Partidos que as fazem...
Há políticos de esquerda com responsabilidades que defendem que “a propriedade é um roubo”. Ora, se toda propriedade é um roubo, então não há distinção entre uma aquisição honesta e desonesta. Seria muito interessante saber como se comportariam ao verificarem que um ladrão lhes invadia a casa...
Quem acredita atualmente na descentralização, a avaliar: pela proposta de passes mais baratos em Lisboa,  pela concentração das operações da TAP em Lisboa, pela localização de mais um aeroporto em Lisboa ou perto, pelo processo de passagem/não passagem do Infarmed para o Porto? Finalmente, pela diferença de nível entre a decisão e a responsabilização financeira na proposta de modelo de descentralização apresentada pelo Governo?

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