Uma política vergonhosa de governo da vergonha
13-09-2018 | por Manuel Martins
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As palavras ditas por quem ocupa o mais alto posto no Estado português deviam ser entendidas como conteúdo simbólico único, uma espécie de valor universal que abraçassem em confiança toda a comunidade. As palavras são talvez a maior invenção humana e o facto de serem objeto de tráfico no seu mais íntimo significado não implica que, em si mesmas, não sejam capazes de articular ideias que nos fazem superar e ser melhores.
As palavras, nestas circunstâncias, não se podem assemelhar a tantas outras ditas como um piar rancoroso ou como proclamações ao gosto dos ouvidos que as vão acolher. A palavra pobre é tremendamente rica em conteúdo. A pobreza é algo que, como alguém disse, nos envergonha, sobretudo se formos responsáveis pela sua existência. Se no nosso país a pobreza cresceu assustadoramente e os muito ricos ficaram ainda mais ricos, tal significa que houve uma política deliberada para que resultasse desse modo. Por isso muitos dos nossos compatriotas viveram e vivem sem o mínimo de dignidade. E faz doer ver no nosso semelhante um cidadão sem esse mínimo de dignidade.
Houve quem fizesse da pobreza um programa político de governo: Passos Coelho, Paulo Portas, Maria Luís, Assunção Cristas e C.ª prometeram e conseguiram empobrecer os portugueses em geral e enriquecer uma ínfima minoria. Empobrecer foi até ao Governo de António Costa a saga e o desafio de quem todos os dias desencadeava medidas, impostos, taxas para que os muitíssimo ricos pudessem contratar desempregados a preços baixos e realmente enriquecer os que beneficiavam dessa competitividade. E quem não quisesse empobrecer que abandonasse a sua zona de conforto e fosse pelo mundo fora à procura de outra vida, proclamava Passos, secundado por Portas e Cristas. As palavras uma vez ditas ficam nos ouvidos dos destinatários e nos registos mediáticos existentes.
O programa de empobrecimento durou quatro anos e tinha em Berlim e em Amesterdão quem achasse que ele era o castigo para os sulistas de Portugal. Mas ele foi a salvação da crise da banca e serviu para transferir o défice privado para o Estado, arcando os portugueses com a dívida dos bancos para estes continuarem ricos e mais de um quarto dos portugueses muito pobres. Ser pobre para Salazar era uma qualidade. Em democracia defender o mesmo conceito é muito mais difícil. E, por isso, a palavra pobre é, neste caso, uma chaga viva que se reflete na vida dos portugueses.
Aqueles que devido ao empobrecimento se encontram privados de quase tudo, até da dignidade humana, deviam merecer respeito e coragem para traçar políticas que os arranquem da situação em que se encontram. Trata-se dos mais elementares deveres de irmandade e de bondade. De facto, a pobreza devia envergonhar os que governaram para empobrecer. E se Passos governou para empobrecer, como não se envergonhar de tal proeza?
Quando Portugal saiu do procedimento de défice excessivo o mais alto magistrado da nação valorizou a ação de Passos Coelho pelo que fez durante a governação. E de novo o peso das palavras ditas, mais populares. -Quem pretendeu empobrecer, prometeu que ia fazer pobres de quem Marcelo hoje tem vergonha da pobreza. Pode ser valorizado o homem que criou um mar de pobres que envergonham Marcelo?
Se a pobreza pode envergonhar, a vergonha pode ser uma pobreza de alma se servir de arma de arremesso a destinatário incerto. Há muitos pobres em Portugal para nos deixar confortáveis. Mas este Governo iniciou um trajeto de estancar a pobreza e devolver rendimentos. A pobreza que envergonha Marcelo não foi eliminada, mas seria uma vergonha não reconhecer o que foi feito e que hoje os portugueses não vivem tão mal como viviam.

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