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02-08-2018 | por Jorge Cortez
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A História de S. João da Madeira tem datas importantes que não devem ser esquecidas.
No dia 8 de junho, fez 60 anos que se realizaram as eleições presidenciais. Os candidatos foram o General Humberto Delgado, apoiado pela oposição e o Almirante Américo Tomás, um ex-ministro de Salazar e seu “yes man”.
Foi um tempo em que o regime fascista tremeu e, se não fossem as “chapeladas” (vigarices eleitorais) feitas em quase todos os lugares, o regime teria caído 16 anos mais cedo. As aldrabices foram imensas, os resultados viciados e muitos cidadãos, suspeitos de serem oposicionistas, impedidos de votar. O regime considerou que o resultado tinha sido favorável ao seu candidato com 76 % contra 24 % do General Humberto Delgado. Apesar das reclamações terem demonstrado haver um grande número de irregularidades, por exemplo em muitos sítios houve mortos que «votaram» e apoiantes do regime que votaram várias vezes, de nada valeu reclamar.
Em S. João da Madeira, graças à oposição, conseguiu-se garantir a fiscalização constante das urnas de voto. Desde o inicio do ato eleitoral, passando pela contagem e a publicação dos resultados locais, um grupo de cidadãos manteve-se firme e vigilante e cá o fascismo foi derrotado. Foi um dos poucos concelhos em que tal aconteceu. Nos restantes concelhos do distrito de Aveiro só Espinho nos igualou. Mas alguns pagaram caro a ousadia e, posteriormente, foram perseguidos e presos.
Daí para a frente, Salazar não correu mais riscos e acabou com as eleições presidenciais. O Presidente da República passou a ser escolhido por um “colégio” de homens do regime e tivemos Tomás até 25 de abril de 1974, altura em que em vez de o levarem a julgamento pelos crimes políticos praticados durante os seus mandatos, “pagaram-lhe” uma viagem para o Brasil, país que nesse tempo vivia numa ditadura militar das mais repressivas, onde foi acolhido de braços abertos.
No dia 5 de agosto, fará 75 anos a “Greve dos Sapateiros”.
A Direção do Sindicato, era na altura composta por trabalhadores que não estavam comprometidos com o regime, tentou um entendimento com os patrões na tentativa de conseguir melhores condições de vida, e melhor racionamento de bens alimentares impostos pelo regime (vivia-se em plena Segunda Guerra Mundial). A resposta às reivindicações foi completamente negativa pelos industriais e por isso só restou aos sapateiros a greve.  
Pela manhã do dia 5, muitos operários não se apresentaram ao trabalho e foram, em diversos grupos, de fábrica em fábrica, incitar outros trabalhadores à greve. O movimento cresceu e à tarde havia milhares de trabalhadores em luta, não só de S. João da Madeira mas também de outras localidades como: Arrifana; S. Roque; Nogueira do Cravo; Escapães; Cucujães; etc. Tudo culminou com uma grande manifestação reivindicativa como nunca tinha acontecido.
Conta-nos António Costa Santos Carreirinha (sanjoanense, 1.º presidente do Sindicato do Calçado, comunista, preso nas cadeias fascistas mais de sete anos) em documento escrito pelo seu punho que “as autoridades fascistas responderam com a maior das repressões às justas reclamações operárias. Pelas sete horas da tarde, chegava a S. João da Madeira, o subdiretor da PIDE, António Cardoso dos Santos, a comandar uma brigada e, duas horas depois, chegava uma companhia de infantaria do Regimento 24 de Aveiro, a Guarda Nacional Republicana de Espinho, da Feira, de Cucujães e de Oliveira de Azeméis. Nesse dia a PIDE fez 120 prisões. Os grevistas, escoltados pela polícia política, foram levados para o Porto, desses, 80 foram levados para o Barreiro. Muitos foram libertados passados alguns meses. Outros só passados anos. Alguns passaram à clandestinidade. S. João da Madeira foi, durante 2 meses, ocupada militarmente e mantida em estado de sítio. Mas a greve não foi em vão porque as suas reivindicações foram alcançadas: os industriais deram o aumento pedido e passou a ser feita uma distribuição mais equitativa dos géneros - a mais elevada da região”.

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