Rosa Maria Gomes está bem e visitou esta semana S. João da Madeira
“Estive a menos de um ‘danoninho’ de morrer”
19-07-2018
Rosa Maria Gomes, comissária da Esquadra de S. João da Madeira, já regressou à República Centro-Africana, onde se encontra ao serviço das Nações Unidas em Missão, depois de vários dias hospitalizada num hospital em Lisboa após ter contraído malária. A capacete azul está neste momento de férias em Portugal e em entrevista a ‘O Regional’ assegura que esteve a um ‘danoninho’ de perder a vida, mas acreditou sempre que iria vencer.
Estatísticas

1285 Visualizações

Outras Acções
Comentar Imprimir Aumentar Diminuir Restaurar

Jornal ‘O Regional’ - Depois do susto, como está neste momento a sua saúde?
Rosa Maria Gomes - O susto passou, felizmente. Estou bem, a recuperar, com um pouco de anemia mas controlada.

Isto é que foi um susto…
É verdade, António. Um susto grande mas felizmente está tudo bem agora. Estive internada dois dias no Hospital Sérvio com malária e os meus rins deixaram de funcionar. Tive várias complicações associadas. A situação começou a agravar-se e tive que ser transferida de urgência para Portugal.

Mas, afinal, o que é que aconteceu ao certo?
Contraí malária como toda a gente sabe. Eu estou a dar aulas na capital Bangui, a trabalhar numa das bases da Missão, e o meu gabinete fica na Ucatex. Inicialmente, ninguém desconfiou que se tratava da doença, nem eu própria, pois não tive sintomas, não apresentava nada que indicasse que se tratava de malária. As temperaturas lá são elevadas, tiveram lugar nessa altura duas cerimónias e eu tinha estado muitas horas exposta ao sol e eu pensei que tinha apanhado uma insolação, uma vez que nesse dia comecei a vomitar e todos pensavam que tinha sido do excesso do sol. Mas como não estava a apresentar melhoras, os testes, mais tarde, confirmaram que se tratava de uma malária, mas já muito avançada.

Estamos a falar de uma doença considerada das mais perigosas no mundo e um dos maiores riscos para os viajantes no estrangeiro infectados e que mata milhões de pessoas todos os anos. Antes de partir em missão, não fez os tratamentos antimalários?
Eu fiz a medicação, mas a determinada altura deixei de tomar os medicamentos, pois não me sentia bem com eles. Provocavam-me problemas de visão e estômago e arrisquei deixar o tratamento. Provavelmente, se não o tivesse feito, a doença poderia não ter sido tão grave. Tenho colegas que estão a tomar e outros não. Depois de tudo isto, não tenho dúvidas de que é necessário tomar e, aos que não estão a fazer os tratamentos, já lhes pedi por tudo para tomarem a medicação, independentemente de todos os sintomas que esta medicação provoca. A medicação tem que ser tomada e ponto final.

A sua vida esteve mesmo em risco?
Sim. Passei por momentos muito difíceis. Eu estive a menos de um ‘danoninho’ de morrer (risos) – fiquei muito mal mesmo. Permaneci dois dias no Hospital Sérvio e os rins deixaram de funcionar. Perante este prognóstico, fui evacuada de urgência para Portugal num avião da Força Aérea.

“Sempre acreditei que iria sobreviver”

Mas temeu o pior?
São horas muito difíceis, que se misturam com muitas coisas. Mas, apesar do estado complicado da minha saúde, nunca pensei no pior. Sempre acreditei que iria sobreviver.

Mas do que se recorda em concreto?
Recordo-me de tudo. Foram horas longas. Dias longos. Estive desde o dia 15 ao dia 4 internada no Hospital Santa Maria, em Lisboa. Cerca de oito dias foram passados na Unidade de Cuidados intensivos e os restantes em nefrologia.

Quer com isso dizer que esteve sempre consciente?
Sempre consciente. Eu nunca perdi a memória. Mas como não conseguia respirar, estava sempre com oxigénio, estive para ser entubada, fiz diálise… ufa! Já passou (risos).

Depois de sair do Hospital Santa Maria já voltou à República Centro-Africana…
Tinha que voltar. Todas as pessoas que estiverem em missão, o período permitido de ausência são 24 dias. Ou regressa e continua ou termina a sua missão. Entrei no passado dia 6 e regressei no passado sábado, dia 14.

Isso quer dizer que é sua vontade continuar em Missão?
Claro que sim (risos). É um sonho que me acompanhava há 10 anos. Vai ser um recomeçar de uma missão ainda com mais força.

Mas a sua saúde já lhe permite assumir este regresso?
Não posso dizer que estou totalmente recuperada, mas sinto-me apta para exercer as minhas funções.

Como foi voltar ao local depois da doença?
De forte emoção. O médico que me acompanhou quando me viu ficou muito feliz, abraçámo-nos, pois estavam todos muito preocupados comigo. Foi muito emocionante.



“Foi muito confortante receber tanto carinho”

Estamos a falar de um local com uma cultura muito diferente da nossa e onde se vive com muito pouco…
É verdade. Eu estou a dar aulas a polícias. Explico-lhes e ensino-lhes a fazer um acidente de viação. Para perceber, eles não sabem usar uma régua, não conseguem transcrever o acidente na rua para o papel. Pedi-lhes uma vez para desenharem a sala de aula onde estávamos todos juntos. O resultado foi imensas salas de aulas.

Mas quando foi em missão não sabia o que ia fazer. Ensinar caiu-lhe que nem uma luva…
Acredite que é verdade. Eu dei aulas durante 18 anos e sinto-me muito realizada. Poder ensinar para mim é muito satisfatório, é cativante. Sinto-me realizada.

Quando regressa à República Centro-Africana?
No início de Agosto. Dia 4 começo a trabalhar e poderei regressar a Portugal em Outubro ou em Dezembro.

Recebeu a visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no Hospital Santa Maria…
É verdade. O sr. Presidente foi visitar-me três vezes ao Hospital. É um ser humano grandioso. Tirámos fotos e as suas visitas foram sempre muito divertidas.

Mas neste momento está de férias…
Estavam já programadas para esta altura, mas devido à doença antecipei uns dias e vão ajudar-me a recuperar forças.

Veio visitar esta semana S. João da Madeira, estava com muitas saudades?
Muitas. Antes de mais, quero agradecer a preocupação que muitas pessoas tiveram comigo. Durante mais de uma semana era a minha filha que, através do meu telemóvel, falava com as pessoas. Mas foi muito confortante receber tanto carinho e é aquilo que estou a receber neste momento aqui na cidade.

Comentar

Anónimo