Exposição retrospectiva da obra de Apichatpong Weerasethakul
Cineasta de culto tailandês para conhecer no Núcleo de Arte da Oliva
21-06-2018 | por Joana Gomes Costa
O Núcleo de Arte da Oliva inaugura esta sexta-feira, 22 de Junho, a exposição «Apichatpong Weerasethakul: A Serenidade da Loucura». Esta será a única apresentação europeia desta exposição retrospectiva do cineasta tailandês que já percorreu várias cidades nos Estados Unidos e Ásia. Apichatpong Weerasethakul conquistou reconhecimento internacional no início dos anos 2000 como cineasta de culto, tendo-se afirmado em 2010 depois de ter vencido a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes. O cineasta está em S. João da Madeira, onde partilhou com os jornalistas a sua admiração com as instalações da Oliva Creative Factory e Núcleo de Arte e pelo apoio à arte.
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Na exposição «Apichatpong Weerasethakul: A Serenidade da Loucura», que será inaugurada dia 22 de Junho, pelas 19h30, apresenta o já considerável corpo de obras artísticas realizadas pelo cineasta antes e durante a produção de longas-metragens, reunindo mais de 20 obras realizadas entre 1994 e 2017, entre um conjunto de filmes experimentais iniciais e raramente vistos, argumentos e estudos para filmes, fotografias e instalações mais recentes.
No total, estas obras formam um conjunto que nos oferece um novo olhar sobre o singular processo criativo do artista bem como alimenta um diálogo rico com o seu trabalho cinematográfico.
Andreia Magalhães, directora do Núcleo de Arte da Oliva, salientou aos jornalistas a “dualidade” entre a vertente mais “pessoal” relacionada com “o desenvolvimento de projectos do artista”, as “suas inspirações”, “relações familiares e de amizades mais próximas” e outros “projectos artísticos mais conhecidos” que também integram a exposição.
Relevando a vertente “documental e fotográfica” da exposição, Andreia Magalhães destaca da exposição “algumas das instalações mais impactantes”, nomeadamente a obra intitulada «Fireworks: Archives» (2014), uma projecção de grandes dimensões, maioritariamente formada por imagens da colecção de animais de pedra do místico e escultor tailandês-laociano Bunleua Sulilat (1932-1996) existentes num templo do norte da Tailândia, perto do rio Mekong, assim como «Memoria, Boy at Sea» (2017), que até esta apresentação no Núcleo de Arte da Oliva não tinha sido incluída na exposição e que é uma obra directamente relacionada com o filme em que Apichatpong Weerasethakul ​está a trabalhar presentemente na América do Sul, ainda em fase de pré-produção.
Andreia Magalhães afiança que, embora sendo um “cineasta ainda bastante jovem”, Apichatpong Weerasethakul tem já “uma obra muito desenvolvida e muito conhecida”.

Cineasta destaca instalações e o apoio à arte

Apichatpong Weerasethakul chegou a S. João da Madeira no início da semana, estando a acompanhar de perto os trabalhos de montagem e preparação da exposição no Núcleo de Arte da Oliva.
No final da tarde de terça-feira, ainda no início destes trabalhos, falou com os jornalistas sobre esta que foi a sua quarta visita a Portugal, mas a primeira a S. João da Madeira, onde admira o apoio à arte e as instalações da Oliva Creative Factory e do Núcleo de Arte, considerando que “é uma honra” a sua presença cá. “Invejo este espaço, na Tailândia não temos estas instalações e apoios à arte”, afirma o cineasta, dizendo mesmo que “é muito inspirador”. Apichatpong admira o espaço, salientando que, mesmo arquitectonicamente, o edifício “é muito bonito”, destacando a requalificação da antiga metalúrgica Oliva, que “continua a honrar a memória do sítio e do seu passado”.
Quando questionado sobre o que podem as pessoas esperar desta sua exposição, Apichatpong considera que o melhor é o público não trazer qualquer expectativa, mas absorver “a luz e o som, tentando fazer as suas próprias memórias”. As obras expostas partem das suas “experiências e memórias pessoais”, mas o artista acredita que são “abertas o suficiente para que se misturem” com as experiências de cada visitante.
Na relação entre as obras expostas e os seus filmes, Apichatpong realça serem “expressões diferentes”, sublinhando que as obras nesta exposição devem fazer com que o público tenha uma atitude “bastante activa”, para que “caminhem pelo espaço e se estiverem aborrecidos podem sair”. “Já no cinema não nos podemos mexer, ficamos hipnotizados”, refere, realçando, no entanto, que “o conceito de memória e de certas expressões, como felicidade ou mensagens políticas são similares”, mas apenas “em formas diferentes”. Admite que quem estiver “familiarizado” com o seu trabalho no cinema “poderá encontrar uma ligação”, porque algumas obras têm as “mesmas localizações e actores”.
E à pergunta se se sente mais um artista ou um cineasta, Apichatpong diz sentir-se “ambos”, porque começou por apresentar o seu trabalho em galerias ainda antes da estreia do seu primeiro filme.
Tendo nascido em 1970 em Banguecoque, mas crescido na cidade de Kohn Kaen no nordeste da Tailândia, Apichatpong reconhece que as “paisagens e o ritmo” da sua terra, assim como o ambiente hospitalar em que cresceu tendo os pais médicos, se reflectem no seu trabalho.
À entrada para a exposição, os visitantes vão ser confrontados com a reprodução em tamanho gigante de uma fotografia feita por Apichatpong em 2009, no âmbito do trabalho que realizou com um grupo de adolescentes que optou por permanecer na sua aldeia na Tailândia, contrariando a tendência da maioria que saiu para cidades maiores. Uma aldeia onde está presente o “trauma” causado pelo “comunismo” na década de 70/80 do século XX, numa época onde houve muita “brutalidade” por parte da polícia e militares na perseguição aos aldeões.
Pormenores que Apichatpong Weerasethakul irá partilhar na inauguração desta sexta-feira, onde estará presente.

Arte e Cinema

«Apichatpong Weerasethakul: A Serenidade da Loucura» é uma exposição itinerante com a curadoria de Gridthiya Gaweewong e produzida pelo Independent Curators International (ICI), de Nova Iorque. Estará patente no Núcleo de Arte da Oliva até 2 de Setembro.
Esta exposição decorre no âmbito das actividades que o Núcleo de Arte da Oliva aposta em paralelo com a programação dinamizada a partir das colecções residentes. Um “programa a longo prazo” no qual Andreia Magalhães assume o objectivo de construir uma “programação que contribua para o panorama artístico das exposições nacionais”. Este ano a aposta passou pelas “relações entre arte e cinema”, sendo que a directora do Núcleo de Arte explica que, como este é um “lugar de cruzamentos” onde já há o “cruzamento entre a Arte Bruta e a arte mais reconhecida”, o objectivo será “potenciar e alargar a outras áreas”, como a relação entre arte e música ou arte e dança, por exemplo.

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