Olhar de Gustavo Giacosa pela Colecção Treger/Saint Silvestre
Arte Bruta: histórias de violência que interpelam consciências
19-04-2018 | por Joana Gomes Costa
Partindo das obras da Colecção Treger/Saint Silvestre, o curador Gustavo Giacosa explorou diferentes dimensões da violência, resultando numa exposição dividida em sete momentos, ou actos, numa visão mais teatral da arte. Intitulada «Histórias de Violência», a exposição foi inaugurada no passado dia 14 de Abril, no Núcleo de Arte da Oliva, num momento que contou com uma visita guiada pelo curador, que levou o público numa viagem pela sua interpretação destas obras e o seu trabalho, num convite que, partilhou, “não podia recusar”.
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A nova exposição do Núcleo de Arte da Oliva apresenta um novo olhar sobre a Colecção Treger/Saint Silvestre, em diálogo com obras de outros acervos, através da curadoria do actor e coreógrafo italo-argentino Gustavo Giacosa, que aborda «a questão da destrutividade própria do ser humano».
O curador dividiu a exposição – que reúne obras de mais de 50 artistas – em sete actos, todos eles ligados ao tema central da violência: pulsões; rivais; clausura; armas; batalhas; vítimas; transformações. As obras escolhidas emergem de várias categorias, assim como de diferentes técnicas e formas de representação, aliando a Arte Bruta e Singular da Coleção Treger/Saint Silvestre à Arte Contemporânea da Colecção Norlinda e José Lima, que empresta obras a esta exposição, promovendo assim, pela primeira vez, o diálogo entre as duas colecções permanentes do Núcleo de Arte da Oliva. A exposição conta ainda com empréstimos da colecção de Gustavo Giacosa e Fausto Ferraiuolo, Galeria Christian Berst Art Brut (França) e La “S” Grand Atelier (Bélgica).
A inauguração decorreu no passado sábado, dia 14 de Abril, contando com a presença do curador Gustavo Giacosa e dos coleccionadores Richard Treger e António Saint Silvestre, num momento que abriu com a actuação da Banda de Música de S. João da Madeira.
 
Uma reflexão apartidária sobre a violência
 
Admirador de Arte Bruta, de que é um profundo conhecedor, Gustavo Giacosa encontra-se radicado em França, onde tem desenvolvido nos últimos anos uma pesquisa sobre a relação arte-loucura nas artes visuais, tendo sido comissário de muitas exposições sobre este tema, inclusive como curador convidado no Museu de Lausanne, grande referência europeia no que se refere à Arte Bruta.
Na inauguração da exposição, Gustavo Giacosa partilhou com o público a “surpresa” com que recebeu o convite por parte de Richard Treger e António Saint Silvestre para comissariar uma exposição incidente nesta colecção que veio conhecer a S. João da Madeira no início do ano. Um convite “que não podia recusar”, confessou, sublinhando que “geralmente, os espaços de exposição de Arte Bruta são pequenos e escuros”, pelo que considera o Núcleo de Arte da Oliva um espaço “único”, ainda mais quando convivem aqui duas colecções tão distintas.
O curador explicou que, quando visitou o Núcleo de Arte da Oliva pela primeira vez, no passado mês de Janeiro, ficou “surpreendido pela grande quantidade de representações de actos de violência” presenta nas obras da Colecção Treger/Saint Silvestre, vendo assim uma “oportunidade de reflectir sobre a violência”, mas “sem tomar partido”.
Antes de partir à descoberta da exposição, guiando o público pelos sete momentos e explicando as escolhas, opções e um pouco de alguns dos artistas escolhidos, Gustavo Giacosa relacionou a pertinência da escolha do tema, no dia em que “foi declarada uma nova guerra”, com o anúncio da ofensiva que Estados Unidos, França e Reino Unido lançaram contra a Síria, em resposta ao alegado uso de armas químicas. 
 
Núcleo triplicou número 
de visitantes
 
Andreia Magalhães, directora do Núcleo de Arte da Oliva, explicou que esta exposição marca o arranque da Programação de 2018, que classifica como “ambiciosa” e “coerente”, dando continuidade ao enfoque na vertente educativa.
A responsável sublinhou ainda que “é muito raro”, mesmo em contexto internacional, encontrar espaços que trabalhem “com géneros artísticos tipicamente separados”, pelo que o Núcleo de Arte da Oliva é uma “estrutura com projecto muito singular que o torna raro”.
Andreia Magalhães aproveitou a oportunidade para agradecer à Câmara Municipal de S. João da Madeira “o apoio e empenho” a este projecto, assim como aos coleccionadores pela “resistência”, reconhecendo que “não é fácil levantar um projecto desta natureza”, que “não revela resultados imediatos”.
Para o presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira, Jorge Sequeira, o Núcleo de Arte da Oliva é “um dos mais importantes espaços do nosso país para exibição de arte”, agradecendo em particular aos coleccionadores “a grande generosidade, fraternidade e entrega à nossa cidade”. “Confiaram nos sanjoanenses o depósito da sua colecção”, sublinhou, lembrando que esta é “uma das mais importantes colecções de Arte Bruta no mundo”.
Relativamente à exposição agora inaugurada, Jorge Sequeira considerou ser “um alerta à nossa consciência”, uma vez que “a violência marca a nossa história e o nosso quotidiano”, pelo que encara esta mostra como um “desafio à paz”.
“O Núcleo de Arte está em crescimento”, anunciou o edil, avançando que, nos últimos três meses, e face ao período homólogo, “triplicámos o número de visitantes”. Jorge Sequeira realçou o reforço do investimento na comunicação deste espaço, realçando que desde a sua inclusão nos roteiros do Turismo Industrial o número de visitantes “aumentou consideravelmente”.
Para breve, o edil anunciou o lançamento de um novo site do Núcleo de Arte da Oliva, espaço que classifica como “uma pérola que está em S. João da Madeira e precisa de ser mostrado ao mundo”. 
Relembre-se que, em 2017, Richard Treger e António Saint Silvestre venceram o prémio Coleccionador atribuído pela Associação Portuguesa de Museologia (APOM).

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