Somos o país do papel, das leis e diplomas
12-04-2018 | por Manuel Martins
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Sim! Primeiro, inventou-se a escrita para combater o esquecimento. Para inscrever na pedra a memória de qualquer coisa que não se poderia perder, para se atestar da verdade, que depois foi passando, paulatinamente, a equivaler à palavra escrita. Depois as entidades oficiais rejubilaram. Bastava escrever o que quer que fosse para se obter a derradeira prova da sua autenticidade, para se ditar e escrever a verdade! E assim surgiram os diplomas, para certificar a vida, os diplomas legais, para orientar a vida, provas inequívocas e documentais, para que a verdade emergisse sempre na vida. E com isso veio a confiança cega: nos diplomas, nos títulos, na forma, no papel, no atestado, no certificado e comprovativo. Com tanta barafunda, surgiram os diplomas falsos, com eles, a desorientação e o desalento como as fundações da Babel burocrática. O milagre da transubstanciação formal, que prometia converter o mero instrumento numa verdade substantiva, nasce o embuste. Mais do que uma bandeira para um currículo, com o devido respeito pelos currículos. o que importa é a verdade e a retidão de um perfil pessoal, profissional e ético. O que importa é o valor que esse perfil tem de útil para uma instituição, uma empresa ou um país. E, enquanto não apostarmos num modelo de educação e formação que ultrapasse a mera coleção de diplomas, não poderemos ambicionar uma cultura de desafio, de motivação, de exigência e de excelência, uma cultura, afinal, centrada no essencial e não na aparência. Uma cultura que repudie e rejeite, radicalmente e de vez, as deferências bacocas e subservientes à Senhora Doutora ao Senhor Arquiteto ou Senhor Engenheiro continuando entretidos com a pequena parábola inicial que demonstre a facilidade ao invocar a posse de um diploma, assumindo um status quo dos títulos vãos e quási-nobiliárquicos, dos Relvas, dos Sócrates, dos Barreiras… O que ninguém imaginava é que todos, ou quase todos que se reclamavam detentores de diplomas, verdadeiros ou falsos, esses tinham começado a criar, a ditar diplomas. Para fazer face a esse mar de supostas verdades sobre tudo e sobre nada, atropelando-se e anulando-se, que obrigavam outros a obter diplomas em análise de diplomas, para fazer face a tais verdades absolutas em que se navegava sem costa à vista. Somos, pois o país do diploma. Do papel. Do documento. Da lei. Do decreto. Do regulamento. Da revogação parcial. Do legalismo. Do juridiquês. Da discussão de secretaria. Todo isto ostentando com orgulho bolorento dos nossos diplomas, emoldurados numa parede social, esquecendo que o diploma, na sua origem, que era dobrado e por isso era invisível aos olhos dos outros, a não ser que fosse necessário ir procurá-lo no fundo de uma gaveta, abri-lo e mostrá-lo, era só um diploma. Preocuparmo-nos mais com o diploma do que com o seu valor intrínseco, ou com o valor intrínseco da pessoa, da carreira, das qualidades e da experiência que ele supostamente reflete, é um dos sinais mais preocupantes do nosso paroquialismo atávico. Que Almada me desculpe, por estar farto da geração dipsomaníaca!

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