Alcoolismo na primeira pessoa
“Não se explica a vontade de beber”
15-02-2018 | por António Gomes Costa
Não revelam nomes. O olhar é caído e as frases são curtas. São pessoas marcadas por uma sociedade que lhes continua a apontar o dedo. São homens e mulheres que começaram a beber muito jovens. Pretendiam afirmar-se, dar a volta à solidão e ao stress. Passados vários anos, ainda hoje não conseguem explicar a tão desejada vontade de beber. Aquilo que sabem é que esta doença lhes deixou marcas profundas e irreparáveis. Fomos conhecer histórias de alcoólicos recuperados e o grupo de Alcoólicos Anónimos, que reúne todas as sextas-feiras, no Patronato, em S. João da Madeira.
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São discursos marcados pela angústia, revolta e sentimento de culpa de pessoas que um dia escolheram o álcool como forma de vida. Gente de olhares caídos, grande parte deles com frases inacabadas e com histórias que, em muitos casos, deixaram marcas na família, no campo profissional e pessoal.
Não existem dados actualizados ou conhecidos quanto ao número de pessoas dependentes do álcool na cidade. Segundo fonte do Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga, “não existe nenhuma consulta da especialidade nos nossos hospitais”. Aquilo que apurámos é que o consumo de álcool tem vindo a aumentar, “principalmente nos jovens”, assume o coordenador dos Alcoólicos Anónimos (AA), que quer apenas ser identificado como Silva. O grupo reúne todas as sextas-feiras, no Patronato, em S. João da Madeira, para ajudar pessoas na recuperação.
Os Alcoólicos Anónimos existem há cerca de 20 anos e juntam homens e mulheres que partilham entre si a sua experiência e força para resolverem o seu problema e, ao mesmo tempo, ajudarem outros a recuperarem desta “doença”. Aqui o único requisito exigido é mesmo “parar de beber”.
A falta de coragem tem afastado, nos últimos anos, pessoas destas reuniões de apoio. “Muitas pessoas por serem da terra têm vergonha em dar a cara” e essa falta de sensibilização “é no momento o nosso grande problema, pois não estamos a conseguir trazer estas pessoas até nós”.
O grupo dos AA já juntou mais de 15 “companheiros”. Hoje o número de pessoas que frequenta o espaço não é superior a três. As cadeiras estão lá. O espaço é acolhedor, mas faltam pessoas.
Silva é um alcoólico recuperado e não esconde a preocupação com o número elevado de pessoas que “bebem de forma não controlada” e assume que não é fácil chegar até eles. “Não sei se é pela reunião ser no Patronato, ou as pessoas não quererem ser vistas por ali, não se entende”. Aquilo que sabe é que, nos últimos cinco anos, a AA tem vindo a perder pessoas e as que pedem ajuda têm “mais de 40 anos, pois os jovens, apesar de em muitos casos terem a droga associada, entendem que não necessitam de ajuda”.


“O vinho destruiu-me a vida”

‘O Regional’ falou com famílias, alcoólicos em recuperação e com alguém que, apesar dos anos, teme uma recaída numa “doença”. Todos assumem terem sentido na pele a discriminação, até dos próprios médicos. Vamos a factos.
“É uma doença que nos leva à morte”, refere João (nome fictício), um alcoólico de 55 anos em recuperação. De olhar caído e de frases muito incompletas, assumiu várias vezes que “o vinho destruiu-me a vida. Perdi tudo o que tinha”. Começou a beber muito novo, para “afastar o stress e enganar a solidão”. Solteiro e com um emprego estável, nunca deu importância aos alertas da família para o problema. “Eu bebia, em média, só no período da manhã, mais de cinco litros de vinho”, explica.
Dez anos depois de vários tratamentos, muitos dias no hospital, solidão profunda e de “muitos olhares de lado”, aponta mesmo o dedo a alguns médicos do Hospital da Feira, que “me disseram na altura que as bebedeiras curam-se em casa”. João assume que na altura a família ainda apresentou uma participação contra o comportamento do médico, mas “não deu em nada”. Hoje é um homem novo, apesar das marcas deixadas.

Histórias que se confundem

Ana tem 35 anos e conhece bem o estigma do alcoolismo, através do percurso do seu pai. “Ainda hoje sinto-me culpada de não ter percebido mais cedo que de uma doença se tratava. Cheguei a maltratar o meu pai, quando na verdade os seus olhos só me pediam ajuda. Vou morrer, sempre com esta mágoa”, desabafa lavada em lágrimas.
Explicou-nos que a sociedade ainda não aceita que se trata de uma doença e existe ainda quem aponte o dedo a estas pessoas dependentes do álcool.
Testemunha diária da autodestruição do pai, Ana pediu ajuda a outras pessoas em processo de recuperação. “Não é fácil”. O sucesso da vitória destas pessoas “também está nas nossas mãos, pois na verdade nunca assumem que estão doentes e recusam ajuda”. A experiência de pessoas em recuperação foi preciosa para Ana. “As histórias destas pessoas confundem-se”, garante. O seu pai aceitou ajuda, com uma condição: “sair de S. João da Madeira. A ideia de partilhar o seu problema com pessoas que se iam cruzar com ele na rua estava forra de questão”, remata.

“Nunca estamos totalmente curados”

António é hoje um homem feliz. Já não bebe há cerca de 12 anos. Começou a beber muito cedo, mesmo antes de constituir família. Não quer falar do passado, pois para si o que conta é o presente. “Quero ajudar com a minha experiência pessoas que se sintam perdidas como eu já me senti. A sociedade tem que saber que a AA existe e estamos dispostos a ajudar. As entidades deveriam reconhecer mais o trabalho que aqui fazemos, sensibilizando as pessoas para a importância da partilha, pois não são só eles que necessitam de ajuda, nós também”, enfatiza.
Os olhos azuis de António não escondem um passado duro até ao dia em que se apresentou numa reunião dos AA em S. João da Madeira. “Depois das ameaças da família”, este foi um passo decisivo para a sua vitória, uma vez que “nunca estamos totalmente curados. Estamos em recuperação permanente, apesar de todos estes anos sem beber”.
António garante que, por norma, os alcoólicos conhecem-se todos ou quase todos. Acabam por ser cúmplices. Mas todos partilham da mesma opinião: “não se explica a vontade de beber”.

“É preciso ter coragem”

João (nome fictício), de 38 anos, é um alcoólico recuperado. Hoje, gosta de dar apoio a um problema que ninguém pode dizer que não seja nobre. Por isso, alerta para o facto de quando uma pessoa se decidir a pedir ajuda a quem já passou por isso, “tome consciência de que a nossa experiência é para os ajudar, caso contrário, voltam a cair na bebida”. E, nesses casos, diz: “é bom que os familiares estejam com eles, pois também são parte interessada. Os familiares são muito afetados psicologicamente por estas situações”.
João conta, com algum desagrado, que muitas vezes estas pessoas não têm paciência para se curarem. Geralmente, os mais novos “vêm falar comigo, encaminho-os sempre para as famílias anónimas ou alcoólicos anónimos, mas aquilo que se verifica é que rapidamente se chateiam de estar a ouvir as outras pessoas a falarem dos seus problemas e desistem. Assim não conseguem nada”. Só com determinação e com vontade se pode superar um vício que se entranha no sangue. “É necessário que acreditem nas famílias anónimas, pois ali as pessoas são todas iguais e ninguém se ajuda ou recupera deste problema sem força de vontade”.

“Um doente perigoso”

O Manuel (nome fictício), de 53 anos, foi alcoólico durante 30. É com bastante orgulho que agora nos conta a história da sua vida, que em tempos foi um inferno, quer para ele, quer para os que viviam com ele. Até que, um dia, os amigos de uma associação em Santa Maria da Feira transformaram a sua vida. “O José tanto me chateou que acabei por ir”, diz com uma expressão de agrado no rosto. Desconhecia na altura que em S. João da Madeira existia um grupo de apoio a estas pessoas e assume que estar afastado das pessoas que conhecem a sua história, “para mim ajudou”, pois “a vergonha é nossa inimiga”.
Não gosta de recordar o passado. “Eu era um doente dos perigosos, era muito agressivo. Fora de casa era muito calmo, mas, dentro de casa, a mulher, os meus filhos, tinham uma vida muito triste. No outro dia lembrava-me de tudo, pedia desculpa à mulher, mas passado uma semana era tudo na mesma”, assume.
“O álcool dá cabo de muitos casais e arranja muitos problemas entre familiares”. Manuel reforça a importância da ajuda. “Devo tudo ao sr. José, que teve a paciência de não me deixar desistir, pois tentei desviava-me sempre”.
Hoje fala sem problemas do assusto. “Aos domingos, até ao meio-dia, enchia o ‘folgo’ com vários litros de vinho, só dava cabo da minha saúde”. E hoje assume: “eu estava mesmo condenado a morrer, pois o especialista tinha-me dado meio ano de vida, disse-me que estava completamente arruinado”. Hoje reconhece o valor da sua família. “Hoje sei dar valor e reconhecer que errei. A minha família viu o inferno desaparecer e aparecer o céu. Agora vivemos muito felizes”, concluiu.

“Só não tem ajuda quem não quer”

Carla é secretária do grupo de Famílias Anónimas, que reúne igualmente às sextas-feiras no Patronato. Criada há cerca de 25 anos, recebe “familiares de alcoólicos e consumidores de drogas”. Ali são também partilhadas experiências vividas e em conjunto tentam encontrar “soluções para nos ajudarmos enquanto famílias”, porque quem ali está “procura ajuda para o familiar que temos em casa”. Quando os familiares ali entram, “também eles estão doentes e cometemos erros, pois ali trabalhamos os nossos sentimentos”, um trabalho que assume não ser fácil. “Se para uns é uma libertação partilhar estas situações, para outros não o é”. Mas de uma coisa tem a certeza: “o que é dito naquela sala fica e morre ali”.
 Esta responsável referiu-nos também que o número de famílias presentes não é o desejado e acredita que a “vergonha” ou o não querer dar a conhecer o drama pela qual estão a viver deverá ser a causa principal do afastamento destas pessoas ou da desistência ao aperceber-se que estão ali para partilhar. Este é “um espaço para quem quer e não para quem precisa”, pois, assume, em ambos os casos, “só não tem ajuda quem não quer”, remata.

Comentários
Anónimo | 17-02-2018 15:16 beber
beber è para esquecer as vezes que vivem as pessoas no dia a dia delas torna se uma droga que o corpo nao pode passar sem ele e porque falta saber porque chegam a esse ponto a gente nao sabe tenho pena e as vezes quando falo com algumas pessoas digo sempre em conversa que o homen deve dominar o alcol e nao ele ser dominado por ele mas no fundo alguma coisa de trajedia se passa depois as pessoas nao querem saber o que se passa de chegarem a isso
Anónimo | 15-02-2018 13:55 Um testemunho valioso!
Este artigo ? um testemunho valioso at? para todos aqueles que se riem quando se cruza com uma outra pessoa alcoolizada. Na verdade, o que devemos sentir ? apenas compaix?o e dar ajuda poss?vel, em vez de nos rirmos dos problemas dos outros!
Aproveito para dizer o seguinte: Vivo nesta cidade h? 49 anos feitos em Agosto ?ltimo, e desconhecia da exist?ncia do Alco?licos An?nimos na cidade! ? importante sabermos que existe algo assim na terra onde vivemos, para podermos encaminhar algu?m conhecido ou mesmo familiar com um problema deste!
Gostei de ler estes testemunhos neste e julgo que serviu de informa??o importante para todos n?s!

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