Portugal não tem corruptos?!...
07-12-2017 | por Manuel Martins
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Falar de corrupção em Portugal tornou-se um tema bastante complicado. Qualquer cidadão minimamente razoável aceitará como bom o argumento que não é saudável um ambiente justicialista, onde os visados são condenados com base em boatos ou notícias maldosas. Devemos, em nome das conquistas democráticas e do Estado de direito que permitiram a sociedade moderna, respeitar as decisões da justiça. Diria até que o cidadão razoável compreende que os tempos da justiça não são os tempos mediáticos e, tendo um grau de paciência e uma tolerância generosa, aguarda o veredicto. Penso que apenas quem confunde julgamentos moralistas com base em preconceitos ideológicos ou idolatrias personalistas com uma decisão judicial discordará da razoabilidade do Estado de direito. Ora, o problema começa aqui. Estamos em 2017, não em 1974. Aplicando o princípio anterior, absolutamente razoável e louvável, há uma conclusão óbvia: em Portugal, nestes 43 anos, não houve corrupção!... Nem gestão danosa!... Nem tráfico de influências!... Nem houve criminalidade de colarinho branco!... Decorre desta observação, continuando a aplicar o princípio enunciado no parágrafo anterior; -Portugal é um oásis, sem corrupção, sem gestão danosa, sem tráfico de influências e sem grande criminalidade de colarinho branco! -Qualquer um percebe que a aplicação de um honorável e saudável princípio do Estado de direito cria uma ficção absurda quando a justiça penal não funciona! Ora é o colapso da justiça penal que corrói o tal honorável e saudável princípio? Aliás, por respeito aos portugueses e à nossa sanidade coletiva, ninguém pode fingir que Portugal é um oásis sem tal “pecado” marginal! Se assim fosse, era de perguntar? Os autores da imprensa falada e escrita seriam uns doentes mentais, padecendo de uma paranoia aguda? Falar de corrupção em Portugal torna-se intrinsecamente complicado. Por um lado, temos de falar, e muito, pois só assim podemos ter alguma esperança de um dia a justiça poder exercer as suas funções, por outro lado, a conversa vai ser inevitavelmente injusta, populista e justicialista. Porque, quando a justiça penal não cumpre cabalmente o seu papel, o que acontece são as condenações na opinião pública e na comunicação social. Tal apreciação leva, curiosamente, a classe política afirmar que, é vítima preferencial destas condenações. No entanto foi a classe política que nada fez ou faz, para que a justiça funcionasse, e dessa forma as condenações efetivas, para que o honorável e saudável princípio do Estado de direito e o critério do cidadão razoável fosse apreciado. Continuar a insistir, no debate público, que só devemos falar de corrupção quando haja condenação transitada em julgado é fugir da realidade de uma justiça penal que não funciona, é ajudar à construção de uma ficção doentia (não há corrupção em Portugal), é alimentar o populismo e o justicialismo, assim como a despolitização do cidadão e o seu alheamento eleitoral, e tolerar, perdoando a corrupção e os seus autores.
 

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