No rescaldo dos incêndios
07-12-2017 | por Abel Paiva da Rocha
Estatísticas

538 Visualizações

Outras Acções
Comentar Imprimir Aumentar Diminuir Restaurar

Logo a seguir às eleições autárquicas cheguei a “rascunhar” um artigo intitulado “O alinhamento das estrelinhas de António”.  Com este título pretendia evidenciar a sorte que enquadrava o engenho político do nosso Primeiro Ministro. Sem desvalorizar a sua grande habilidade para gerir o modelo de governo que construiu para o País, eu tencionava listar um conjunto de factores de natureza conjuntural que tinham favorecido a sua afirmação e, mesmo, o seu êxito político. A paz social dos últimos dois anos e a esmagadora vitória nas autárquicas eram as expressões mais emblemáticas desse êxito. Para este tinham contribuído o turismo, o Plano Junker, a descida significativa dos juros da dívida pública nas praças internacionais, os enormes problemas políticos e sociais da Europa (que tinham permitido uma diminuição da sua pressão sobre o nosso País), um Presidente da República “guarda-chuva” do governo.
Mas, eis que deflagraram os Incêndios de Outubro. Bastaram quinze dias para que o anterior equilíbrio instável se transformasse em iminente desequilíbrio de poderes entre: o mundo rural e mundo urbano, os trabalhadores do sector privado e os do público, o peso político e o sindical dos Partidos da Esquerda, o Primeiro Ministro e o Presidente da República, a Assembleia da República e o Presidente da República, com reforço deste.
Porém, tanto ou mais do que as con­sequências dos incêndios de Outubro, foi a descoberta da falta de medidas suficientes de prevenção, ou da falta de eficácia das medidas tomadas, face aos incêndios de Pedrógão, que desalentou o País e o “acordou” para a sua verdadeira situação de insegurança. Todos ficaram a saber que, na hora do desastre, o Estado não foi capaz de defender minimamente os Cidadãos, nem os seus bens privados, nem os bens de todos como foi o caso do Pinhal de Leiria.
Neste contexto, o Presidente da República optou claramente pelo “mergulho” escaldante na realidade natural e social do País; pelo “murro na mesa” do País político, através quer do seu discurso à nação quer do seu convite a que todos os responsáveis públicos sentissem no terreno o sofrimento das vítimas dos Incêndios.
Fez bem o Presidente da República! Deste modo, conseguiu “re-ligar” o País político ao País real, em risco de ficar de costas voltadas; conseguiu responsabilizar os demais órgãos de soberania, reorientando-os para a resolução dos mais urgentes problemas relativos ao apoio às vítimas dos fogos.
No momento em que escrevo, seguindo o exemplo do Presidente da República, Representantes dos diversos Partidos Políticos, do Governo e da Assembleia da República visitam os territórios devastados. Fazem bem. Oxalá sejam capazes de fazer um programa cientificamente eficaz e politicamente consensual de apoio às vítimas e de reordenamento do território que nos livre de futuros desastres semelhantes. Para a garantia da nossa qualidade de vida e da sustentabilidade dessa qualidade das gerações futuras.
Nesta hora de emergência nacional, seria bom que todos fôssemos capazes de aceitar e compreender eventuais alterações ao Orçamento de Estado para 2018, no sentido de arrecadar recursos para a reconstrução do património ardido e para o apoio às vítimas. Daríamos, deste modo, exemplo de uma verdadeira solidariedade nacional; de uma solidariedade organizada e, mais do que altruísta, inteligente pela consciência da nossa radical fragilidade comum; de uma solidariedade intergeracional assumida e sem desculpas, pois é sempre mais fácil “empurrar” os problemas para as gerações futuras.

Comentar

Anónimo