Incêndios, culpados e justiça
16-11-2017 | por Manuel Martins
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Os acontecimentos sobre os incêndios de junho e outubro 2017 faz-nos lembrar setembro de 1966 “passados 51 anos”. Sintra era motivo de notícia, em toda a imprensa nacional e estrangeira. Não pela sumptuosidade do seu património histórico-natural, mas antes, devido à violência com que o fogo a devastava e às circunstâncias dramáticas em que haviam morrido, durante os trabalhos de extinção, 25 militares do Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa(RAAF) em Queluz. O fogo lavrou com intensidade brutal, entre os dias 6 a 12 de setembro. As chamas irromperam na Quinta da Penha Longa, à Quinta de Vale Flor, Lagoa Azul e Capuchos. Em diversos momentos, a situação era incontrolável, derivado às elevadas temperaturas e constantes mudanças de vento forte. Pontos de referencia estiveram sob risco elevado, como; Palácio de Seteais, de Monserrate e Parque da Pena, entre outros. A própria localidade de S. Pedro de Sintra chegou a correr perigo. A presença, no ar, de corpos incandescentes, originou focos de incêndio noutros pontos do concelho; Albarraque, Cacém, Colares, Gouveia, Magoito, Mucifal, Pinhal da Nazaré, Praia Grande e Praia das Maçãs. As dispersões dos meios de combate eram escassas. Com a mobilização dos bombeiros do distrito de Lisboa, Caldas da Rainha, Elvas e Leiria e forças militares e militarizadas integraram o dispositivo de quatro mil homens em ação. Lagoa Azul e o largo do Palácio Nacional de Sintra foram, as escolhas estratégicas, para concentração dos meios de combate. À noite, um grande clarão era visto em Lisboa e arredores. Para amenizar o cansaço das forças em combate, centenas de pessoas prestaram a sua solidariedade, como, restaurantes, cafés e pensões serviram, gratuitamente, alimentos a bombeiros e soldados. Nessa época não existiam, em Portugal, meios aéreos para o combate a incêndios e os veículos dos bombeiros não dispunham de tração às quatro rodas e muito menos de depósitos de grande capacidade e bombas de grande débito. Muitas das frentes do incêndio foram debeladas com recurso a ramos de árvores, num trabalho penoso e extenuante. Calcule-se, condições enfrentadas, na presença de altas temperaturas, com utilização de uniformes usados na época, capacete de latão e botas de borracha. Apesar das condições de extrema adversidade e da ausência de meios, incluindo sistema de telecomunicações, bombeiros e militares defenderam, com êxito, o património edificado de Sintra e evitaram que o fogo atingisse maior número de área arborizada. A abundância de mato ressequido era o maior inimigo para os bombeiros, representando um dos maiores amigos da combustão. A limpeza de terrenos e matos estava proibida. Importa referir que o conceito de prevenção, ao nível da antiga Direcção-Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas, não tinha as incidências dos dias de hoje. Os avultados prejuízos atingiram quase a totalidade da sua área. Os terrenos de particulares foram os mais causticados. A perda de 25 vidas humanas não tiveram as desculpas, abraços e beijos, os corpos carbonizados não tiveram o acompanhamento de políticos e governantes, “foi chocante” diz quem testemunhou a tragédia.  Este foi o mais grave incêndio ocorrido na serra de Sintra, totalizando 50 quilómetros quadrados de área ardida. Segundo uma investigação da PJ este incendio foi um simples descuido, na zona da Lagoa Azul, A experiência vivida na serra de Sintra, suscitou reflexões, no domínio organizativo da prevenção e do combate, cuja essência permanece atual, alimentando repetidamente o flagelo dos incêndios florestais neste país. Já em 1966, à semelhança do que se verifica nos nossos dias, era defendido um trabalho a montante e interligado entre várias entidades intervenientes na problemática dos incêndios florestais. Em 1986, por ocasião do 20.º aniversário do grande fogo na serra de Sintra, concelebrou-se no Alto do Monge uma missa por intenção dos militares que perderam a vida durante o incêndio, a qual foi presidida pelo padre Vítor Melícias, na qualidade capelão da LBP, Palácio Nacional de Sintra, esteve o ministro de Estado e da Administração Interna, Eurico de Melo, que tomou assento na tribuna de honra, entre outras entidades.

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