Dia Mundial da Diabetes
Cidade tem mais de cinco mil diabéticos
16-11-2017 | por António Gomes Costa
A doença continua a matar todos os anos milhares de pessoas em Portugal, abarcando todas as idades. Apesar da evolução dos fármacos, a diabetes continua a preocupar médicos da especialidade, que alertam para a importância dos rastreios. Estima-se que em S. João da Madeira existam mais de cinco mil doentes. No Dia Mundial da Diabetes, este ano subordinado ao tema «A Mulher e a Diabetes», fomos conhecer o dia-a-dia de quem vive com a doença.
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Uns chamam-lhe uma doença “silenciosa”, outros a pandemia do século XXI, uma vez que se desenvolve sem sintomas durante muitos anos. A diabetes mata anualmente milhares de pessoas em Portugal e, ao que parece, não existem dados “reais” quanto ao número de portadores da doença em S. João da Madeira, uma vez que os mesmos se dividem pelas consultas da especialidade no Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga (CHEDV), Agrupamentos de Centros de Saúde de Entre Douro e Vouga II – Aveiro Norte ou clínicas privadas.
Em 2004, foi criada em S. João da Madeira uma associação para prestar apoio aos Diabéticos sanjoanenses. A «Associação Aprender a Viver com Diabetes» nasceu da boa vontade de “diabéticos” e manteve as suas portas abertas durante vários anos. “Fomos obrigados a encerrar as instalações em 2014 por falta de apoio do município”, garantiu-nos Fernando Vultos Sequeira, um dos mentores da associação.
Apesar do esforço “de muitos anos”, a associação viveu sempre com incertezas quanto ao seu futuro. “Tentamos resistir porque sentimos que éramos válidos pelo apoio que prestávamos a várias pessoas”, mas como era necessário pagar a renda do espaço, “era insuportável continuarmos sem o apoio do município” e, assim sendo, a “solução foi encerrar por falta de apoios”, reforça Vultos.
Para Fausto Sá, fundador e administrador do Centro Médico da Praça (CMP), o número de casos de diabéticos em S. João da Madeira “é preocupante e deverá passar seguramente dos cinco mil”.

“Temos muitas crianças diabéticas e muitas vezes os pais nem sabem”

Nos rastreios efectuados até ao final da manhã, foram diagnosticados dois novos casos da doença em duas pessoas “que não sabiam que tinham diabetes”. Fausto Sá reforça: “os rastreios em qualquer idade são fundamentais”, bem como o acompanhamento de um médico da especialidade (endocrinologia). “Temos já muitas crianças diabéticas e muitas vezes os pais nem sabem disso”, alerta.
Ao longo do dia, no CMP foram ainda encontrados vários medidores de glicose, com “índices de variação de 10 a 15 por cento”. Aquele responsável avança ainda que o CMP “está disponível para todos os diabéticos, para proceder à calibração/ajuste das suas máquinas”. Basta que, para isso, “as tragam e peçam ao analista, ou à responsável pelo serviço, para calibrar”, enfatiza.
A doença afecta mais de 13 por cento da população portuguesa e estima-se que 44 por cento das pessoas portadoras da doença estejam por diagnosticar, segundo refere um relatório nacional divulgado na última terça-feira, data em que se assinalou o Dia Mundial da Diabetes que, este ano, teve como lema «A Mulher e a Diabetes», com vista a alertar para o seu direito a um futuro saudável.
O documento da Direção-geral da Saúde (DGS) divulgado terça-feira revela que a mortalidade causada pela diabetes tem vindo, no entanto, a diminuir. 2015 foi o ano que registou a taxa de mortalidade mais baixa, com 19,4 mortos por 100 mil habitantes. Morrem, por ano, com a doença, entre 2200 a 2500 mulheres e, aproximadamente, 1900 homens, o que significa, segundo refere o relatório, mais de 4 por cento das mortes das mulheres e de 3 por cento nos homens.

100 doentes nas consultas do hospital

O Hospital de S. João da Madeira acompanha, desde Maio de 2016, nas suas consultas da especialidade, cerca de uma centena doentes sanjoanenses. Estas consultas, que se realizam todas as quintas-feiras, estão integradas no Plano de Revitalização da Unidade de S. João da Madeira e são asseguradas por uma médica do Serviço de Medicina Interna, com especialização nesta área.
Dulce Silva, responsável pela consulta da especialidade, explicou-nos que o serviço garante um acompanhamento adequado destes doentes, e que, nos dias de hoje, esta doença crónica permite que as pessoas “tenham uma vida perfeitamente normal. Não existem limitações e não devem existir exclusões”. A média de idades dos doentes acompanhados por Dulce Silva nas consultas em S. João da Madeira ronda os 50 e os 60 anos, mas “existem pessoas mais novas”, muitas delas descobertas nas análises de rotina.
Ao contrário da diabetes tipo 1, que não pode ser prevenida, a diabetes tipo 2 é, em larga medida, evitável. Para isso, é necessário adoptar estilos de vida saudável, uma alimentação saudável e a prática de actividade física, medidas estas que podem evitar o aparecimento de muitos casos de diabetes tipo 2.
A nossa reportagem solicitou o número de diabéticos assistidos nas consultas nos Agrupamentos de Centros de Saúde de Entre Douro e Vouga II – Aveiro Norte, mas a informação da ARS-Norte não chegou em tempo útil.

“Picadinha” suspensa

A Junta de Freguesia (JF) de S. João da Madeira, para ajudar a população residente dos bairros sociais, há muito que deu continuidade à «Picadinha», no controlo da tensão arterial, glicémicos, colesterol. Trata-se de um serviço em colaboração com todas as farmácias de S. João da Madeira, que apoiam nos equipamentos e em determinados descontos de material necessário. Trata-se de um projecto gratuito e que acontece nos bairros do Orreiro, Fundo de Vila e Parrinho/Mourisca. Neste momento, e segundo fonte da JF, a iniciativa encontra-se “suspensa e a ser repensada, em virtude do fim do curso de saúde da Escola João da Silva Correia”, parceiros nesta iniciativa

“Ainda hoje estou a tentar aceitar e aprender a lidar com a doença”

No Dia Mundial da Diabetes fomos conhecer quem vive diariamente com a doença. “Ainda hoje estou a tentar aceitar e aprender a lidar com a doença, que descobri em Dezembro de 2016”, refere Ana Luísa. A viver na cidade há cerca de dois anos, confidenciou-nos que nunca foi muito “amiga de médicos”. Numa análise de rotina, ficou a saber que era diabética. “Foi estranho, pois sempre fui uma pessoa magra e nunca tive nenhum sintoma da doença nem ninguém na família”, o que “aumentava a minha desconfiança”. Repetiu o diagnóstico, que confirmou que Luísa era mesmo diabética. Acompanhada nas consultas da especialidade numa instituição privada, assume que, hoje, a má alimentação poderá ter estado na sua doença.
O mesmo factor foi apresentado por Luís Pinho, 50 anos, a conviver com a doença há aproximadamente 15. “Quando somos novos não pensamos nas consequências. Comi e bebi sempre muito bem”, gracejou. Soube da doença numa consulta de Medicina no Trabalho, e, hoje, reconhece que o estilo de vida que levava na altura, além da diabetes, poderia ter consequências bem mais graves.
Por sua vez, Manuel Pereira não tem “paciência para os médicos de família”. Aos 55 anos, quando soube da doença, “fui logo saber quem seria o melhor médico da especialidade”, pois a doença estava muito presente na sua família. “Existe muito mais informação, rastreios à doença e cuidados” e nos dias de hoje “um diabético pode fazer uma vida normal, desde que sob controlo”.
Lúcia Matias já perdeu a conta ao número de anos em que vive em “harmonia” com a doença, que quase lhe tirou a visão. “Confiei no meu médico” e agradece o apoio que recebeu por parte da família e amigos. “Foi muito importante”. Hoje, assume não ter muitos cuidados com a alimentação. “Sei o que comer, como comer” e um dos segredos está no “exercício físico diário”, rematou.

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