O TEMPO E AS FIGURAS
Amadeu Cruz – o homem, a família, a cidade
09-11-2017 | por Manuel Córrego

Equipa inicial de juniores (Hóquei em Patins) - Em cima, da esquerda para a direita: Manuel Tavares (?Manecas?), Henrique Esteves (treinador), Valdemar Martins. Em baixo, mesma ordem: Amadeu Cruz, José Teixeira e Manuel Cortez
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O tempo passa o tempo corre o tempo uiva, chega-se a uma curva do caminho em que se olha para trás e o que se nos depara é um mundo de recordações. Falar com Amadeu Cruz é receber a lição de quem muito viveu e muito amou o torrão natal. Não é propriamente uma entrevista. É o tu cá tu lá de uma conversa tocada pela aura de emoções lá longe e tão perto que no fundo trazem ao-de-laço os segredos recônditos desta terra bendita.      
A Verbena dos anos quarenta (um exemplo) primeiro patamar de um adolescente a abrir os olhos para o milagre de viver. Para Amadeu foi o início do pendor para se juntar aos outros, intuindo que as relações pessoais não dão soma mas multiplicam. Aqui o vemos, aos dezasseis anos, em 1948, integrando a equipa júnior de Hóquei em Patins da Associação Desportiva Sanjoanense: a contar de cima, Manuel Tavares (Manecas) Henrique Esteves (treinador), Valdemar Martins, Amadeu Cruz, José Teixeira e Manuel Cortez.

É desse tempo um recorte do semanário “O Regional” de um jogo a contar para o Campeonato Regional da Primeira Divisão, onde consta que “o nosso grupo teve o seu ponto forte no médio Amadeu Cruz que com aquela genica que lhe é habitual só à sua parte marcou quatro dos seis golos da vitória”.
Ia eu em dezasseis anos quando foram organizadas as Verbenas para angariação de fundos: uma para a Sanjoanense e outra para os Bombeiros. Para o efeito foi construído um ringue na cidade, estava cá o doutor Josias (Pai) que era aficionado do hóquei e ao fazer o exame encontrou-me uma sombra nos pulmões, em razão do que me suspendeu do desporto e me recomendou que comesse bem e descansasse. De tal modo levei a sério a recomendação que daí a um mês, quando fiz novo exame, tinha engordado dezanove quilos, “oh, homem, vais de oito a oitenta, agora tens mais um mês para voltares ao normal”.
Naquela altura (Amadeu a falar) só pensava no Hóquei. Nem cachopas, nem namoradas, nada, nada, nada. Chegava a casa do trabalho, pegava nos patins – e ringue comigo. A dado passo o Nelinho Teixeira deixou o Hóquei e ofereceu-me os patins. Na altura eu trabalhava na Império, lá em cima, o patrão era o senhor António Dias. Pedi-lhe para me autorizar a fazer as botas e ele disse que sim, quando estiverem prontas mostras. Mostrei-lhe e ficou admirado por que eu tinha posto o tacão na frente. Expliquei-lhe que era o travão do patim, e quando lhe perguntei quanto era ele disse que era oferta da casa, bom homem, o senhor António Dias.
A minha profissão era sapateiro, mas como gostava de apreciar à minha volta, ia seguindo o trabalho do modelador. Uma ocasião estava desenhar um modelo quando os colegas me fizeram sinais, voltei-me e atrás de mim estava um dos sócios da firma, o senhor Ricardinho Leite. Fiquei atrapalhado e ele disse-me para continuar o que eu estava a fazer. Tirei vários moldes, e em resultado disso, passei a modelador. Eu adorava aquilo, adorava o meu trabalho, e fui ao estrangeiro às feiras de calçado.
Para falar como quem se confessa, o meu gosto era patinar no ringue da Verbena. Estava perto dos dezasseis anos quando comecei com o Hóquei em Patins. Era uma coisa nova, eu via o Cesário Correia, um guarda-redes fabuloso que fazia defesas do outro do mundo! Por mim não pensava noutra coisa senão naquilo. Eu era alto e esguio demais para a baliza e além disso era senhor de uma genica que aconselhava movimento, por isso fui aproveitado para médio. Não é para me gabar mas passar por mim não era pera-doce – e marcava golos.

Esta crónica terá de continuar no próximo número, mas para fecho peço ao caro Amadeu uma farsada daquelas que saem do catecismo. Não tem muitas, o que mais lembra são as amizades que vêm do convívio com colegas e adversários. Lembra contudo o João Gonçalves, jogador do Académico, um adversário com tal velocidade que muitas vezes a bola ficava para trás. Era conhecido pelo “corta-costelas” porque quando lhe dava na mona gostava de apertar os adversários de encontro à vedação. Até que um dia, sabendo dessa maleita, Amadeu esperou pelo embate até ao último instante, saltando quando ele ia cair em cheio sobre ele – e que por isso bateu na vedação forte e feio, a ponto de que o árbitro teve de intervir.
“Mas, senhor árbitro; ele faz isso a cada passo!”
“Eu sei, eu sei, mas treina isso melhor para que não se note tanto.”
 (Continua)  

 

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