Uma nova narrativa sobre o Portugal em ruínas e abandonado
19-10-2017 | por Beja Santos
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A televisão, a reportagem e a investigação jornalísticas têm-se mostrado muito atentas a estações ferroviárias abandonadas, linhas de comboio de enorme beleza (como a do Tua), hoje sem qualquer serventia, sanatórios sem préstimo, ruínas incompreensíveis desde o gótico ao modernismo é o que não falta. São importantes estas chamadas de atenção, há mesmo imóveis classificados que estão em vias de derrocada, logo à entrada da Alameda das Linhas de Torres há uma mansão que recebeu o Prémio Valmor e está reduzida à fachada. Há edifícios cheios de caráter na Avenida da República também votados ao abandono, ou expetantes, na mira de serem vendidos por quantias bilionárias. As associações de defesa do património vão ter muito que fazer por várias décadas…
“Lugares Abandonados de Portugal”, por Vanessa Fidalgo, A Esfera dos Livros, 2017, é um levantamento bem-intencionado, em vários pontos do país desvela palácios, quintas, conventos, fábricas, estações de comboio e minas abandonadas. Leitura estimulante, pena é que a autora ande permanentemente preocupada com assombrações e vestígios sobrenaturais nestes lugares abandonados, o que para ali há é incúria, herdeiros litigantes, gente que abandonou os lugares à procura de melhores condições de vida, entre outras razões que nada têm a ver com as almas penadas. E nem sempre a propósito sobrecarrega a leitura com memórias e lendas que nada ajudam à compreensão do património derruído.
Há outras leituras possíveis para muito património em abandono, caso dos proprietários sem capacidade para reabilitar. A autora cita Manuel Salgado, vice-presidente de Câmara Municipal de Lisboa ao tempo, dizendo que em 2016 o município tinha 11 756 edifícios a necessitar de intervenção urgente. Destes, cerca de 7 mil encontravam-se em mau estado ou em ruínas e mais de 4 600 estavam devolutos. A verba total necessária para reabilitar todo o património e o espaço público seria de 1 500 milhões de euros. Mas deixava um recado esperançoso: até 2024, a Câmara de Lisboa pretende reabilitar os 7 mil edifícios em mau estado, ao ritmo de 600 por ano.
A autora lembra-nos aldeias e lugares desparecidos, destaca bem Vilarinho das Furnas, em pleno Gerês, quem abandonou o lugar para se ter construído a barragem não esqueceu a vida vivida nesse sítio submergido, ali perto há um museu de memória para quem percorra a serra possa aquilatar o que foi a vida das gentes de Vilarinho. Casas ilustres abandonadas ou maltratadas são muitas, veja-se o Palácio Pombal na Rua do Século, em Lisboa, a derrocada da Quinta da Arealva, no concelho de Almada, e o que resta do Paço dos Condes de Tentugal, mas há mais, muito mais.
Há património que inesperadamente caiu em desuso: uma famosa estalagem de nome Gado Bravo, situada na Reta do Cabo, entre Vila Franca de Xira e Porto Alto, é um fantasma em agonia, o forte de Santo António da Barra, no Estoril, onde Salazar passou férias entre 1950 e 1968, está abandonado, o que a autora escreve mete dó: “Os seus recantos de geometria acentuada são um deplorável amontoado de vidros partidos, portas arrancadas, dejetos, lavatórios partidos, almofadas e tapetes velhos espalhados pelos corredores. Apesar da entrada principal ter o portão fechado a cadeado, a cerca em redor do forte tem cortes que permitem a passagem dos forasteiros”. As tutelas não se entendem, qualquer dia o forte vai abaixo.
Vanessa Fidalgo visitou as ruínas do Sanatório Albergaria Grandela, ali para Cabeço de Montachique, as ruínas do Hotel Netto, em Sintra, onde viveu o escritor Ferreira e Castro, o Sanatório do Mont’Alto, e assim chegamos a um incompreensível e intolerável ruína, o antigo convento de S. Francisco do Monte, em Viana do Castelo. É um lugar cheio de história, desde a Idade Média. A autora documentou-se a sério e quem a lê fica boquiaberto como o imóvel atingiu tal degradação, pilhado tem o claustro e a portaria escorados, felizmente arqueológos amadores de Viana do Castelo não abandonaram as pesquisas mas as ruínas em abandono lá estão, à espera da voragem final.
Os pavilhões do Parque D. Carlos I, nas Caldas da Rainha, impressionam o visitante. Inicialmente, a ideia era fazer ali funcionar o Hospital D. Carlos. Não se concretizou o projeto, os edifícios são um ícone da cidade, o mau estado de conservação já faz pensar que um dia irão abaixo. A edilidade calcula que as obras de requalificação custariam cerca de 9 milhões de euros, mas está tudo numa nebulosa, as tutelas também não se entendem lá muito bem. O Ritz Club foi night club afamado, sito no n.º 57 da Rua Glória, inaugurado em 1908, local afamado pela boémia. João Soares, ao tempo presidente da Câmara de Lisboa, deu luz verde para obras de conservação, doía ver comprometidos os azulejos do século XIX da Viúva Lamego, e todo aquele espaço de dancing e cabaret com décadas de prestígio. “Em 2009, o espaço foi posto à venda e em 2012 abriu, renovado é certo, mas sem o isolamento sonoro necessário para uma capital europeia. Não voltou a ser o mesmo. O Ritz está agora vazio. Está à venda por 3 milhões de euros. O seu futuro é incerto, mas o mais provável é que seja convertido num hotel da moda”.
Iremos visitar Barca d’Alva e as minas de S. Pedro da Cova e da Bejanca, aqui termina esta peregrinação a lugares que tiveram passado, alguns deles de valor histórico inultrapassável, são dezenas de lugares abandonados cujo silêncio nos obriga a refletir sobre os desmazelos do nosso património histórico e cultural.


 

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