Obrigado, Passos Coelho
13-10-2017 | por Abel Paiva da Rocha
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É muito mais fácil bater em quem está em baixo e louvar quem está em cima. Hoje vou fazer o contrário, não obedecendo ao “politicamente correto” da atualidade. Para apresentar esta última perspetiva não faltarão comentadores de serviço. Ainda bem que a democracia pluralista não só permite como vive da diversidade.
Devo confessar que, quando foste eleito no Partido, não votei em ti. Nessa altura, não te conhecia o suficiente, e o que conhecia de ti (ou supunha conhecer com verdade, pois em processos eleitorais surgem sempre uns boatos...) não era do meu inteiro agrado. Além disso, considerava-te ainda muito novo para o desempenho da liderança de um Partido como o PSD.
O modo como foste capaz de enfrentar as circunstâncias e as dinâmicas subsequentes, quer do Partido, quer do País, foi-me progressivamente convencendo de que afinal poderia ter optado por ti. Na Política, como no futebol, prognósticos absolutamente certos só à Segunda-feira.
Lideraste o Partido na oposição e lideraste o governo do País em tempos particularmente difíceis: déficit com mais de 10% do PIB, juros da dívida soberana a 17%, cofres do Estado vazios, que davam só para os pagamentos de dois meses (afirmação então proferida, em desespero, pelo Ministro das Finanças de José Sócrates), descalabro bancário, total falta de confiança das agências de crédito internacionais sobre as nossas possibilidades de pagar os empréstimos, risco de convulsões sociais por eventual falta de dinheiro nas caixas multibanco, etc. etc.
Ainda me lembro de um Político ter dito nessa altura que nós, os devedores, tínhamos em nosso poder uma fortíssima bomba atómica. Qual era? Não pagar! Estou certo de que esta Personalidade hoje não diria o mesmo. Ou melhor: os factos atuais comprovam que o governo do PS, com tempos bem mais calmos, obedece tanto aos credores como o teu governo obedeceu. É que uma coisa são “bocas” de campanha, outra, bem diferente, é a responsabilidade da governação.
Porque também não quero ser injusto, devo reconhecer aqui que a referida Personalidade me tem surpreendido agora pela positiva, no seu espinhoso e habilidoso trabalho de coordenação/articulação negocial da “geringonça”. Espinhoso porque objetivamente difícil para todos; habilidoso, tendo em conta as contradições originais inerentes aos partidos que apoiam o atual governo. Até agora as vacas têm voado, embora com o auxílio de alguns “complementos alimentares”. Diga-se, de passagem, que não são os “complementos alimentares” socialistas prometidos, mas os dos sociais-democratas com uns condimentos de esperança futura...
Mas, não era bem disto que queria falar.
Quero deixar aqui o meu público testemunho de gratidão pelo teu esforço em favor da recuperação financeira e de crédito do nosso país, quando se vivia uma perigosa situação de bancarrota não provocada por ti.
Quero manifestar a minha profunda convicção de que procuraste sempre, na tua atuação política, colocar o país à frente do partido e, mesmo, da tua família. Por ingenuamente teres afirmado uma vez “que se lixem as eleições” ainda foste sistematicamente gozado. Concordo que foste longe de mais nesta declaração, pois o poder democrático é sempre delegado e provisório. Porém, ela revela o grau de sinceridade do teu amor ao nosso país e a uma ação política honesta. Nem sempre acertaste, é verdade. Mas, só não erra quem nada faz. No meu íntimo também discordei de algumas das tuas opções, devo confessar.
Mas também me inquietei comigo próprio por verificar que não poucas vezes foste vítima de uma gigantesca distorção da tua imagem por parte de adversários. E essa pouca vergonha ainda hoje é patente.
Cito: “Depois de por duas vezes os portugueses terem ditado, com o seu voto, o destino de Passos Coelho – primeiro tirando-lhe o poder no país, depois tirando-lhe a liderança no partido” (JN, pág. 2, de hoje, 07 de Outubro, Pedro Silva Pereira, Eurodeputado).
Passos Coelho não ganhou as eleições legislativas que só elas, em rigor, legitimam a formação de um governo nacional? Não me venham dizer que quaisquer “geringonças” são possíveis; se sim, eu pergunto: para quê votar no futuro em eleições legislativas se, depois, no Parlamento, se podem fazer todos os arranjinhos? Além disso, a nossa Constituição ainda vale alguma coisa e, portanto, o regime político mantém-se semi-presidencial ou virou, em função de conveniências conjunturais, para parlamentar? E, será por acaso que, desde o 25 de Abril, ninguém tenha tido a ousadia de construir uma solução de governo de natureza semelhante? Ou será pelo facto de o regime parlamentar nos ter conduzido na primeira República ao desastre económico-financeiro e social que criou as condições propícias para a ditadura? Importa sublinhar que os ditadores não se fazem. São gerados! É por isso que, em geral, a culpa não é deles, mas nossa!...
Sobre a segunda parte da citação: “depois de (...) os portugueses terem ditado (...) destino de Passos Coelho (...) tirando-lhe a liderança no partido”, apenas recordo, para memória futura, que Passos Coelho, até hoje, não foi demitido nem se demitiu da liderança do PSD. Ele apenas declarou que, depois de cumprir o seu mandato, não iria candidatar-se a um novo!
Com demagogias destas, estamos conversados sobre a qualidade de alguns políticos e sobre as suas capacidades para reconstruir a realidade e reescrever a história!...
Concluo uma vez mais contra a corrente:
Gostei do modo como encaraste a derrota eleitoral autárquica e como rapidamente tiraste as respetivas conclusões políticas práticas. Esse modo veio confirmar uma vez mais a seriedade com que procuraste encarar as tuas responsabilidades e, por isso, pode servir-nos de base para uma reflexão útil nesta sociedade em que muitos parecem ter direito a todos os direitos, e poucos a obrigação do cumprimento dos deveres.

 

Comentários
Anónimo | 13-10-2017 13:39 O Passo fez tudo
MAS A DIVIDA CRESCEU.

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Anónimo