Palestra com dia o Psiquiatra Carlos Braz Saraiva no Agrupamento de Escolas Serafim Leite
“Há filhos que temem os pais e isso não é respeito”
06-10-2017 | por António Gomes Costa
O Psiquiatra Carlos Braz Saraiva estará na próxima terça-feira, dia 10, pelas 18h30, no anfiteatro do Agrupamento de Escolas Dr. Serafim Leite, em S. João da Madeira, para debater a temática: “Porque é que os jovens se mutilam?”, palestra que conta com a parceria da Clínica Soluções Plus Dr. Moura Mendes. O encontro destina-se a pais, professores e profissionais de saúde. O médico psiquiatra do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Professor de Psiquiatria na Faculdade de Medicina e membro do Conselho Médico-Legal, alerta para determinados perigos e dá resposta a muitas perguntas, por vezes, difíceis de se fazer.
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Jornal O Regional -Vai marcar presença no próximo dia 10, no agrupamento de Escolas Dr. Serafim Leite, em S. João da Madeira, para debater a temática “Porque é que os jovens se mutilam?”.Pegando nesta pergunta, o que é que afinal leva os jovens, nos dias de hoje, a mutilarem-se?
Carlos Braz Saraiva -A resposta é difícil de dar em poucas linhas. As razões são múltiplas. Estão fora dos jovens e dentro deles. Quer isto dizer que existem na sociedade contemporânea situações de exigência e conflito que, por sua vez, suscitam momentos críticos de ansiedade e frustração intensos, mesmo desespero. Por outro lado, poderão ser referenciadas alienações solitárias, tidas como loucuras privadas, relacionadas com o tipo de personalidade do jovem. Os cortes visam, essencialmente, parar de sofrer, embora, em casos especiais, possam ser interpretados de outras maneiras.

Mas considera que estes jovens sentem dificuldade em colocar nas palavras o sofrimento e por isso usam o corpo?
De facto, muitos desses jovens - e só cerca de metade são reconhecidos publicamente, os outros são secretos – obedecem ao padrão da alexitimia. Não comunicam pela fala, perante situações sentidas como angustiantes. Por isso, usam o corpo como instrumento. Todavia, esta apropriação do corpo, do homem pós-moderno, parece ser uma liberdade assumida nas últimas décadas: “O corpo é meu, faço dele o que quiser”. Como uma tela onde se exibe o direito de gravar ou pintar, como um direito, muito arreigado a um certo agnosticismo.

As autoridades sanjoanenses identificaram três casos de jovens adeptos do jogo “Baleia Azul”, que estimula a automutilação e o suicídio de pessoas, na sua maioria jovens. Os casos foram descobertos em Junho deste ano, durante campanhas de sensibilização junto das escolas por agentes da PSP. O que é que os pais e professores podem fazer para evitar o bullying?
O jogo “Baleia Azul” não é um jogo. Trata-se da tentativa de vinculação, bizarra e doentia, pela submissão e condicionamento de um jovem a um dito curador que explora as fraquezas de certos jovens desesperados. Não existe nenhum divertimento ou prazer, portanto, não pode ser um jogo. Usa técnicas de “lavagem ao cérebro”, que incluem distorções de crenças. O seu alegado inventor, um jovem russo de S. Petersburgo, deverá ser uma pessoa muito perturbada do ponto de vista psiquiátrico. Vil e sem remorsos. Existem referências a comentários sobre o querer “limpar a sociedade”, donde se poder especular uma ideologia neonazi subjacente. Os pais e os professores terão que trabalhar muito a montante: ou seja, na estimulação de papéis sociais, relacionados com o meio ambiente, onde está inevitavelmente a família, que facilitem a comunicação. Por exemplo, a prática desportiva e o escutismo são dois bons exemplos.

Mas até que ponto os pais também dão um mau exemplo do uso das tecnologias?
As tecnologias são um bem para a sociedade. Genericamente, assim é. Só quando escravizam o homem, estamos perante uma doença: uma adição. Mesmo as classificações internacionais psiquiátricas estão a considerar novas doenças. Como frequentemente acontece na vida, os excessos ou os desvios acabam por ser interpretados como perniciosos. Há que saber dosear e encontrar os equilíbrios. Obviamente que os pais têm um papel importante pela força modelar que transmitem aos filhos.

Está a dizer-me que os pais ainda não pararam para pensar nas consequências?
Sim. Muitos pais dizem que não têm tempo para parar ou pensar, devido ao ritmo endiabrado do dia-a-dia. É sempre uma questão de escolhas e de prioridades. Na minha já longa experiência clínica de psiquiatra, confrontei-me, muitas vezes, com pais que ficaram surpreendidos quando descobriram que os filhos se cortavam há anos e pretendiam resolver tudo numa consulta, como se fosse um passe de magia. O retrato comum era de famílias rígidas, críticas, onde não havia troca de afetos. Dito de outro modo, não eram apenas esses jovens que estavam doentes, mas também as famílias. E isso já durava há muito tempo.

“Estimular a comunicação dentro e fora da família”

Mas, no fundo, que cuidados os pais devem tomar para evitar que seus filhos comecem a jogar o jogo da Baleia Azul ou outro semelhante?
A família saudável deve pressupor a existência de canais de comunicação verbal e não-verbal. Por incrível que pareça, há famílias em que os seus membros nunca se tocam. Há filhos que temem os pais, e isso não é respeito. Ouvi, frequentemente, jovens dizerem que não têm amigos confidentes e que jamais se sentiriam à vontade para se abrirem ao pai ou à mãe, face de um qualquer problema sentimental. Outros dizem mesmo que o único amigo que têm é o cão. Ou que os verdadeiros amigos estão nas redes sociais.

Como é que devemos gerir as tecnologias nas nossas vidas?
Mais uma vez, no meio está a virtude. Tirar partido delas, sem nos deixarmos tiranizar por elas. Conviver. Estimular a amizade. Manter escapatórias sociais ao ar livre, por exemplo. Claro que “não há rosas sem espinhos”. Compete-nos discernir e saber cooperar com o inevitável.

Existe quem afirme que esta geração está mais perdida do que as anteriores. Concorda?
Não. Em todas as gerações há sempre rupturas. Desde a revolução industrial, há trezentos anos, que o homem deixou os campos e aproximou-se do mundo fabril das cidades. A adaptação ao “admirável mundo novo” tem sido um desafio ao longo das gerações. Os jovens de hoje não são melhores nem piores. São diferentes. Talvez os choques de adaptação sejam mais impactantes porque tudo muda muito mais rapidamente. E isso é inequívoco. Sente-se, por exemplo, nas conquistas da informática. Uma revolução nas nossas vidas.

Mas considera que os jovens hoje têm menos perspectivas de vida?
Sim e não. Muitos empregos vão deixar de existir. A máquina vai substituir o homem em diversas funções. Por isso, já se considera a possibilidade dos “robots” pagarem impostos, o que me parece correto, no sentido de ajudar a segurança social. Todavia, a acompanhar essa destruição de empregos irão surgir outros, muitos dos quais ainda não conseguimos vislumbrar no horizonte. Eu acredito que o ser humano terá que encontrar as melhores soluções alternativas.

Estes jovens que se automutilam também podem ser vítimas de bullying?
Alguns estudos científicos procuram encontrar uma correlação entre bullying e abuso e os cortes, designadamente nas raparigas. É uma matéria de difícil abordagem pelo que as conclusões deverão ser retiradas com reservas.

Qual é a grande mensagem que pretende deixar nesta palestra no próximo dia 10 de Outubro?
A principal mensagem é a de estimular a comunicação dentro e fora da família. Recordar que as trocas de afeto são essenciais ao crescimento da autonomia e que a aquisição do sentimento de pertença indica o caminho.
 

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