10.º aniversário da morte do Dr. Moita, meu Pai (2007-2017)
Dez Anos, uma Saudade
27-07-2017 | por Tiago de Vasconcelos e Moita
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“A saudade é a memória do coração.”
                                     Coelho Neto
               (1864-1934)

Viveste a vida como ninguém e deixaste a tua marca. Desde daquele 27 de Outubro de 1948, quando vieste ao mundo em São João da Madeira, que tu, irmão mais velho de três e filho de um funcionário da Oliva e de uma modista, anunciaste aos quatro ventos a tua intenção de viver a vida como um pássaro à solta no coração do universo e de saborear cada momento como se fosse o último. A tua família sabia bem disso, mesmo que não o confessassem.
Viveste a infância como ninguém no meio da natureza, onde dançaste e fizeste amor com a Liberdade, conheceste os seus inquilinos e segredos com a curiosidade de um cientista, a sapiência de um sábio e o deslumbramento de uma criança, tal como fizeste nos “Mascotes da Canção” entre 1959 e 1961. Na escola primária, onde os teus professores e colegas conheceram o teu coração de ouro, a tua inocência cristalina, a tua inteligência aguda e a firmeza de princípios e valores que herdaste da tua família, amigos e comunidade. Os teus colegas da primária e do curso geral de comércio sabiam-no bem, mesmo que não o confessassem.
Viveste a adolescência e o resto da juventude como ninguém no Instituto Comercial do Porto, onde tiraste o curso de Contabilidade em 1967; na Oliva, onde estagiaste como contabilista, e na primeira banda de Rock N´Roll da tua terra “Os Dragões”, entre 1968 e 1969, onde foste o 2.º baterista da banda, e deslumbraste todos os que foram tocados com a tua personalidade, talento e simpatia. Viveste o verão do amor com flores em cada palavra e o coração na língua e no olhar. Os teus amigos sabiam-no bem, mesmo que não o confessassem.
Viveste a idade adulta na Grande Lisboa como ninguém e não deixaste ninguém indiferente à tua presença. Nem aos teus camaradas de armas em Mafra e na Agência Militar de Lisboa, onde fizeste o serviço militar entre 1969 e 1972. Nem nas empresas da capital onde trabalhaste como contabilista de dia e estudavas à noite, a partir de 1973, quando resolveste tirar o curso de Organização e Gestão de Empresas no I.S.E.G. Nem à tua mulher, minha querida mãe, a quem deste um sentido para a sua vida e dois filhos, entre 1975 e 1979. Ninguém ficou indiferente e reconheceu o teu valor, pai, quando engoliste sacrifícios e lágrimas, entre ausências e lavores, para terminar o teu curso superior em 1981; quando trabalhaste como economista ao serviço de importantes multinacionais como a Fosforeira Portuguesa ou a Synres, no princípio da década de oitenta e, mesmo desempregado, tiraste um curso profissional de Inglês no American Language Institute of Lisbon em 1984 e não descansaste enquanto não encontraste uma melhor solução para ti e para a tua família. Os teus camaradas, amigos e família sabiam-no bem, mesmo que não o confessassem.
Mudaste as nossas vidas como ninguém, pai, quando nos convenceste a abandonar Carnaxide, com esperanças de ouro e promessas de prata, começando uma nova vida em São João da Madeira em 1985. A tua São João da Madeira, pai. Vila feita cidade, um ano antes da nossa chegada; terra das tuas memórias, encantos e ilusões que se surpreendeu com o teu talento, cultura e génio, nas empresas onde trabalhaste como economista por conta de outrem até 1989 – ano em que começaste a exercê-la como independente, até à tua partida. Que ficou sempre à escuta das tuas estórias na Rádio Serramar, entre 1986 e 1988. Que leu as tuas crónicas mordazes e certeiras n’”O Regional”, entre 1989 e 1991, e que nunca se esqueceu da tua coragem, dedicação, integridade e inteligência, quando ajudaste a salvar a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da tua terra em 1996. Os sanjoanenses sabiam-no bem e agradeceram, mesmo que alguns não o demonstrassem.
Bem sei que querias mudar a tua vida. Apenas as pessoas mais próximas sentiram o vento dessa mudança quando tiraste o curso de formação pedagógica para formadores no CFPIC, em 2000, e começaste a exercer essa profissão, nas áreas da administração, contabilidade e gestão no ano seguinte, começando a transmitir a tua experiência, conhecimento e sabedoria aos teus alunos durante três anos. Quando resolveste candidatar-te a Presidente da Assembleia Municipal de São João da Madeira em 2001 e aceitaste a derrota com a dignidade e o “fair play”, próprio de um verdadeiro democrata; quando voltaste a escrever as tuas crónicas para o “Diário de Aveiro” em 2003 e para blogs em 2006, ou mesmo, quando começaste a deitar fora o lixo que acumulaste na tua secretária, na tua vida e no teu coração, pai, como se adivinhasses a chegada do inverno que se avizinhava, numa gota de urina.
E, por isso, quero que saibas:
Que, ainda hoje, existem pedras que se lembram dos teus passos, paredes que guardaram as tuas palavras, espelhos que reflectem os teus sorrisos, vozes que gritam em São João da Madeira o nome do Dr. Moita, José Manuel Soares Moita, meu mestre, meu amigo, meu pai, como exemplo máximo e único do português digno, do sanjoanense orgulhoso e devoto da sua terra e do ser humano mais extraordinário e generoso que conheci em toda a minha vida.
 

 

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