Arménio, deficiente profundo, é o centro da vida dos pais
Dedicou a vida a cuidar do filho
13-04-2017 | por Diana Cohen
Helena Coelho é muito mais do que uma mãe. É uma mãe-enfermeira. Os últimos 45 da sua vida dedicou ao único filho, Arménio, portador de paralisia cerebral, que completou mais um aniversário na passada sexta-feira.
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A data é sempre celebrada com muito entusiasmo por Helena e Manuel Coelho, que convidam os vizinhos e familiares a juntarem-se a eles na sua residência, em Cucujães. Afinal, cada ano que passa é mais uma conquista, mais uma meta alcançada. E é, sobretudo, neste dia que recordam o nascimento deste filho que foi tão desejado e por quem fizeram sempre tudo o que esteve ao seu alcance para que se sentisse bem, atenuando assim os efeitos da doença profunda.
Hoje, com 74 anos, Helena olha para trás e assegura que não faria nada diferente. Viveu sempre para o filho, mas nem o seu olhar nem a sua voz deixam transparecer qualquer mágoa. Não é nem nunca foi um fardo. Pelo contrário, é uma bênção. “Só peço a Deus que me dê saúde para tratar dele. Enquanto tiver braços e pernas vou cuidar do meu filho”, garante.
Quando Arménio Coelho nasceu, em 1972,  não existiam ainda instituições específicas para casos graves de paralisia cerebral. “Não havia as Cerci e só abriu em Oliveira de Azeméis quando ele tinha nove anos. Naquela altura não aceitavam casos como o dele e quando mais tarde evoluíram e passaram a aceitar, já não valia a pena”, conta a mãe, que, até aos 12 anos de Arménio, ia de autocarro para o Hospital Maria Pia, no Porto, enquanto o marido ia trabalhar. “Saíamos de casa às 7h30 e chegávamos a casa às 17h00. Nem carro tínhamos quando ele nasceu e gastou-se muito dinheiro, mas fizemos tudo o que podíamos e o que nos diziam para fazer”, relata Helena Coelho.
Numa época em que a paralisia cerebral era um tabu e muitas famílias trancavam os deficientes em casa, com vergonha, os pais de Arménio faziam exatamente o contrário. “Sempre que podíamos íamos passear, levávamo-lo para todo o lado, para o café, à Igreja. Íamos muito à praia, chegámos a ir durante cinco anos seguidos para o Algarve”, conta o casal, que guarda vários álbuns de fotografias daqueles bons momentos em família.
Momentos que estão ainda bem presentes na memória de Manuel, 73 anos, que gosta de salientar o quão o seu filho é especial. “Ele sente tudo. Antigamente tinha um carro com o tejadilho envidraçado e ele, deitado atrás, só de olhar para cima sabia quando estava a chegar a casa”. E sempre foi preciso muito pouco para fazerem Arménio feliz. “Quando parava nas bombas de gasolina para abastecer ele ficava em êxtase. Também era uma alegria sempre que lhe dava dinheiro para cortar o cabelo”, conta Manuel, descrevendo ainda que o humor de Arménio também se altera quando pressente que os pais não estão bem dispostos e que adora beijos e que conversem com ele. Com o passar dos anos, contudo, Arménio piorou. Os ossos foram-se deformando e os pais já não têm a força de outrora para pegar nele. Os dias são agora passados no quarto, deitado, a ver televisão. Ao lado, na mesinha de cabeceira, está um papel com as horas e os medicamentos que tem de tomar ao longo do dia. São 11 e os pais não querem falhar. Com o pai agora mais por perto, Arménio tem o dobro da atenção, mas a mãe continua a ser o grande amor da sua vida.

 

 

Helena e Manuel gostavam de ter tido mais filhos
“Tem sido uma vida com altos e baixos”

O parto, no dia 31 de março de 1972, no segundo ano de casamento, não foi fácil. Passaram-se 13 horas desde que Helena Coelho entrou no hospital até Arménio vir ao mundo, com a ajuda de ventosas. O bebé não gritou e isso causou desde logo alguma estranheza, mas só quatro meses depois os médicos confirmaram que sofria de paralisia cerebral.
“Não havia nenhum médico no hospital e as enfermeiras não quiseram acordá-lo e tive de esperar até de manhã. Eram outros tempos”, recorda Helena Coelho, que tinha então 29 anos.
Na altura, não quis acreditar no que o pediatra lhe disse. “Disse que nunca ia chegar a caminhar, mas eu pensei que começasse só mais tarde. Mas não. Desde aí só piorou”, conta a mulher, desabafando: “Foi um desgosto grande, mas entretanto mudámos de ideias e quis engravidar a segunda vez, mas aos dois meses abortei e já não quisemos arriscar a terceira vez porque o médico disse que poderia vir uma criança com o mesmo problema. Mas tenho pena, gostava muito de ter tido mais um filho”.
Aquele bebé, “que nasceu tão lindo e gordinho” depressa se tornou a maior alegria deste casal, mesmo nos dias menos sorridentes. “A vida tem sido aos altos e baixos, mas temos de lutar, às vezes mesmo chateados e revoltados”, diz Manuel Coelho.
E viver assim, em função de uma pessoa, acabou por se tornar, mais do que uma missão, um prazer. Mesmo nos dias em que Arménio está menos bem disposto ou se recusa a comer os alimentos passados na varinha mágica. “É um menino muito bom. Só não gosta muito de ficar sozinho. Pouco mais podemos fazer por ele do que dar-lhe muito amor e carinho”, concluem os pais.
 

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