Núcleo de Arte acolhe tesouro único na Península Ibérica
Oliva Creative Factory desvenda jóias das artes marginais
22-05-2014
Por estes dias, a azafama é muita no Núcleo de Arte da Oliva Creative Factory. No espaço que nasceu como metalúrgica e renasceu para as artes e indústrias criativas, prepara-se a inauguração, agendada para 31 de Maio, das primeiras exposições apresentadas com base na «Colecção Treger /Saint Silvestre». Segundo o próprio coleccionador, António Saint Silvestre, os visitantes podem preparar-se para ver “coisas que nunca viram em parte nenhuma”.
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A 31 de Maio, o Núcleo de Arte da Oliva Creative Factory vai inaugurar três novas exposições: as duas primeiras exposições criadas a partir da «Colecção Treger/Saint Silvestre», intituladas «Arte Bruta: Transgredindo Fronteiras» comissariada por Christian Berst e «Figurativos, Místicos e Revolucionários: Obras da Colecção Treger/Saint Silvestre», que tem os próprios coleccionadores António Saint Silvestre e Richard Treger como comissários e ainda «Traço Descontínuo: Colecção Norlinda e José Lima – Uma Selecção (ParteII)», comissariada por Miguel Amado. As cerimónias estão agendadas para as 17h00 e contarão com a presença dos secretários de Estado da Cultura, José Barreto Xavier, e do Desenvolvimento Regional, Castro Almeida.

“O espaço é genial”

‘O Regional’ falou com António Saint Silvestre, que garante que, nas exposições baseadas na colecção que construiu, ao longo de quatro décadas, juntamente com Richard Treger, os visitantes vão poder ver “coisas que nunca viram em parte nenhuma”.
“Esta colecção de Arte Bruta é única na Península Ibérica e rara no mundo”, afiança o coleccionador, destacando que, na generalidade, os autores são, “em geral”, pessoas “com doenças psicológicas ou psiquiátricas, ou que vivem mal no mundo”, pelo que as suas obras surgem “sem intenção mercantil” sem a preocupação de quererem serem conhecidos como os artistas. “A maior parte destas obras foram escondidas e só encontradas depois da morte dos seus autores”.
É por esta combinação única de um tipo de arte marginal que foge às grandes correntes e vem sendo cada vez mais valorizada internacionalmente, que António Saint Silvestre brinca que, se o público não for surpreendido por estas exposições, apresentará a sua demissão.
Os coleccionadores classificam a Oliva Creative Factory como um “espaço genial”, elogio que estende às pessoas que directamente têm trabalhado neste projecto. “Agradecemos a S. João da Madeira nos terem recebido”, afiança António Saint Silvestre ao partilhar que tentaram “várias vezes” mostrar a sua colecção em Portugal mas “as pessoas não estavam muito interessadas”.
“Os políticos portugueses não perceberam ainda que a arte é um motor muito forte e que não é inútil como se podia pensar”, enfatiza, ao destacar a “sorte” do ex-presidente da Câmara Municipal de S. João da Madeira, Castro Almeida, ser “um político com espírito aberto que compreendeu a força da arte”. Um “espírito” que diz ser partilhado pelo actual autarca, Ricardo Figueiredo, que classifica como “um homem do mundo que percebe que a arte é muito importante”.

“Provavelmente a última aventura da arte do século XXI”

Constituído por Arte Bruta e Arte Contemporânea (incluindo Arte Singular e Arte Vudu), este é acervo de nível internacional, constituí­do por cerca de 600 peças, sem paralelo na Península Ibérica, que agora está alojado no Núcleo de Arte da Oliva.
A cedência é feita pelos coleccionadores Richard Treger (músico natural do Zimbabué, com nacionalidade irlandesa) e António Saint Silvestre (escultor luso-francês de Arte Singular), que há alguns anos dividem a sua residência entre Paris e Lisboa.
Ao longo de 40 anos – 20 dos quais dedicados à sua galeria em Saint-Germain-des- Prés, em Paris –, reuniram obras de criadores das chamadas ‘artes marginais’ e de outros autores cujos trabalhos são próximos desse género artístico, constituindo uma importante colecção que fizeram questão de tornar acessível ao público em geral em Portugal, país do médico Miguel Bombarda (1851-1910), um dos primeiros a nível mundial a preservar e catalogar as criações de doentes psiquiátricos.
O termo de Arte Bruta foi inventado por Jean Dubuffet em 1945 e designa as criações produzidas por personalidades cuja alteridade social ou mental os extrai das correntes estéticas dominantes. A arte dos loucos, dos mediuns, das personalidades extraordinárias, invadidos de febre criadora.
Christian Berst, galerista, curador, conferencista, editor de catálogos de Arte Bruta e comissário da exposição que vai ser agora inaugurada na OCF, apresenta os coleccionadores Richard Treger e Antonio Saint Silvestre como “exploradores dos ‘territórios desconhecidos’”, ou “batedores”, uma vez que estas obras, criadas por artistas que “não se consideram como tais” e criam “sem se preocuparem com a sua divulgação ou comercialização, e a maior parte das vezes escondem-se para criar”, são “como um tesouro, para a procura dos quais é necessário ter uma alma de explorador, de pesquisador de ouro”.
É por isso que Christian Berst acredita que “descobrir, conservar, coleccionar a Arte Bruta é provavelmente a última aventura da arte do século XXI”.

 

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