Truz!Truz!
01-08-2012 | por Ricardo Stockler
A vida social impõe normas. Primeira: visitar amigos e conhecidos. Objectivo: aprofundar sentimentos. Conhecer melhor quem merece a nossa simpatia. Já no século XVII ela ditava o ritual da amizade. Pois as famílias cumpriam com rigor a seguinte palavra: “Não deixes a erva crescer no caminho para a casa do teu amigo”.
Logo, fácil de concluir: o culto da amizade exige visitas frequentes. Mas, atenção! Acima de todas, há uma com prioridade absoluta. Dessa cuidamos pouco. Assim, não admira. A erva cresce. Encobre o caminho. Sinal de que lá vamos raras vezes. Afinal que visita é essa? A visita a nós próprios.
Consequência: somos para nós mesmos autênticos desconhecidos. Andamos sempre a girar. Certo. Mas quê? Não prestamos atenção à direcção correcta. E ela existe. Basta reparar nas placas de sinalização das auto-estradas da vida: “Quem somos?” “Donde vimos?” “Para onde vamos?”
Sem orientação, atrapalhamo-nos todos. Venham becos e atalhos. Mas enfim. Há sempre quem lá chegue. Embora tarde. A más horas.
É aqui sim, senhor. Eis, a misteriosa porta do “eu”. Trancada. Silenciosa. O local pouco batido impressiona. Faz recear imprevisto. Que importa? Não há que ter medo. Basta a gente decidir-se. Bater afoito: Truz! Truz! Perguntar cá de fora tão-somente: “ Ó da casa! Está aí alguém?”
Se estiver, óptimo! Ganhámos o dia. Nada nos impede de entrar. Com a breca! Afinal, não somos visita. Somos da casa. Só que “ai, há quantos anos, eu parti chorando deste saudoso, carinhoso lar”. Olha, ali a sala. A cozinha. Adiante, o quarto de dormir. Em todas as dependências, há bem que arrumar. O pobrezinho do “eu” tem andado por fora. Com muito que fazer. Perdido e enredado em mil e uma ninharias.
Vem cansado. Vê-se bem. Mas agora não são horas de dormir. É tempo de trabalhar. Fazer o que faz Plácido Domingo. O grande tenor mundial tem idêntica preocupação. Até, para não se esquecer, lançou mão de ideia curiosa. Mandou bordar nas travesseiras da cama a seguinte frase. Em inglês, reparem bem, ela dá saboroso trocadilho. “If I rest, I rust”. Quer dizer: “Se parar, enferrujo”.
O mesmo pode acontecer a qualquer um de nós. Paragem por inércia ou por preguiça? Aí temos: início de ferrugem.
Para evitar que tal aconteça, manter o nosso íntimo activo. Funcional. Limpo e arejado. Assim se desperta o gosto de frequentes visitas a nós próprios. Então, a erva do mal e da negligência não será capaz de destruir o caminho da nossa casa interior. Temos de andar fora. Sem dúvida! Há que tratar da vida. Mas voltar. Voltar sempre. Muitas vezes. Bater frequentemente à porta de nós próprios. Truz! Truz! “Ó da casa! Está aí alguém?”


