O Rim artificial – Uma história de afectos
28-06-2012 | por Manuel Córrego
Das suas recordações como professora do ensino secundário, Margarida Negrais reteve conversas com uma aluna, doente renal crónica, particularmente no tocante à relação ambígua de amor/amizade/gratidão versus cansaço/apreensão/aversão à máquina salvadora que é o rim artificial. Mais tarde, pôde disponibilizar uma parte do seu tempo, como voluntária, no projecto “Histórias ao Ouvido”, da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Hospital Maria Pia, no Porto. Foi destas experiências que Margarida Negrais concebeu a ideia daquilo a que chama o diálogo (im)provável entre o Rim Artificial e os Jovens Que Fazem Diálise.
Um livro é como a pedra que se lança ao lago – nunca se sabe a que longes chegarão as ondas que a pedra faz. E uma ideia tão feliz não podia deixar de atrair o interesse daqueles que amam a literatura e se devotaram à nobre missão de estender as mãos ao seu semelhante. Foi o que aconteceu com Levi Guerra, catedrático da Faculdade de Medicina do Porto, médico nefrologista e pioneiro da hemodiálise em doentes renais crónicos no Norte de Portugal. (Uma nota histórica. Foi de S. João da Madeira o doente, em insuficiência renal terminal, que, nos anos sessenta, foi a Paris onde o professor Levi Guerra estagiara. Aí, no Hospital Necker, a família é informada da existência deste médico, procuram-no e dele recebem todo o apoio. Ele desloca-se a Paris e acompanha o doente de regresso a Portugal. E foi na sequência disso que foi adquirida a máquina de hemodiálise instalada no Hospital de Santo António, no Porto, mercê de uma doação financeira que foi prestada pela família Amado, que veio possibilitar o início do programa de hemodiálises iterativas em doentes renais terminais no Norte do País.).
Como especialista e como presidente do Instituto D. António Ferreira Gomes, o professor Levi Guerra deu ao projecto apoio imediato. Daí a uma nova dimensão da obra foi um passo (a pedra a ampliar a onda do lago), qual fosse a inclusão na narrativa de elementos relativos à história do Rim Artificial, descrição da máquina, do modo como funciona e da sua nuclear importância no salvamento de muitas vidas.
Faltava só a ilustração do livro, de que se encarregou o pintor José Emídio, habitual colaborador nos livros de Margarida Negrais. Desta vez, e dada a sua experiência familiar no âmbito das doenças renais, os quadros que produziu de tal modo se inserem no íntimo da obra que dela fazem parte principal.
Para lá de ser uma daquelas ideias cujo destino é fazer carreira, esta história de afectos sobre o Rim Artificial é um livro feliz. Desde a mestria do português à feição ágil e graciosa do diálogo, à profunda humanidade das situações, o traço delicado e amorável das personagens, denunciando um progresso constante da autora de livro para livro.
Na parte relativa à máquina, o teor científico que é a sua substância não era tarefa fácil. Havia que recorrer a uma espécie de balança de ourives, modo único de atingir o equilíbrio perfeito entre a aridez natural da descrição científica e a leveza que o texto literário exigia. O menos que se pode dizer é que a balança funcionou e o equilíbrio foi perfeito. Para muito contribuiu o facto de que, para além de ser um vulto da ciência médica, Levi Guerra é também conhecido como um homem da cultura, em razão do seu pendor natural para as coisas do espírito e pelas incursões na pintura, na poesia e nas iniciativas constantes a motivar as pessoas para um ambiente gregário, cultural e filantrópico.
José Emídio, como disse acima, foi o artista certo no lugar que lhe coube desempenhar. O aspecto pictórico do livro pode ser encarado como uma obra de preito, desde as guardas do livro ao acto criativo que cada quadro representa. Para quem gosta de música, um lied de Mahler. Para quem ama a poesia, um poema de Rui Belo.
Para que tudo seja como deve ser, a revisão, extremamente cuidada, ficou a cargo J.J. Magalhães dos Santos.
Roque e Rute (o adolescente e a máquina salvadora) aí estão para correr mundo. Bem o merecem.


