“A actuação vanguardista da Oliva foi a sua imagem de marca”
02-02-2012 | por Joana Gomes Costa
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A Oliva foi uma empresa à frente do seu tempo quando chegou a empregar cerca de três mil trabalhadores?
A actuação vanguardista da Oliva sempre foi uma das suas principais imagens de marca. Para além de proporcionar aos seus trabalhadores e familiares regalias financeiras e sociais que mais nenhuma empresa na época conseguia igualar, o facto de se ser trabalhador da Oliva era equivalente a possuir um estatuto privilegiado. Ao nível da comunicação publicitária, esse pioneirismo também foi bastante sentido devido à grande coerência e qualidade da produção gráfica, nomeadamente, anúncios, cartazes, prospectos e merchandising.
Nos 90 anos da história do jornal ‘O Regional’, um dos anunciantes que se destaca era precisamente a Oliva, que chegava a ter vários anúncios numa mesma edição. Era de facto um ponto forte da empresa a comunicação dos seus produtos no exterior?
Sim. A Oliva sempre apostou numa forte presença na imprensa. Inicialmente com maior incidência na imprensa nacional e mais tarde nos jornais locais, como o caso de ‘O Regional’. Tratando-se de uma empresa de implantação nacional, nunca descorou a política de proximidade e relações públicas com as populações de S. João da Madeira e concelhos contíguos e para tal contou com a parceria da imprensa local para a transmissão de notícias da empresa e para a divulgação comercial dos seus produtos.
Paralelamente, era também uma empresa com preocupações ao nível das políticas social e cultural, que bem poderia ser exemplo hoje…
É verdade. E muito se deve à gestão “paternalista” do fundador António José Pinto de Oliveira, que em 1937 criou o Fundo Oliveira Júnior e mais tarde a Fundação Oliveira Júnior destinada à concessão de prémios de casamento, nascimento, de antiguidade, serviços de saúde para trabalhadores e familiares, cursos de instrução, entre outros. Paralelamente, deve-se salientar o papel preponderante do Centro de Cultura e Recreio “Oliva” na política cultural e desportiva da empresa.
Nessa altura, esta vertente social e cultural só era comparável a outras grandes empresas, tais como a Cuf ou a Efanor.
A marca Oliva é algo que faz parte do imaginário colectivo dos portugueses. Considera importante a preservação da história e memórias destas marcas que marcaram gerações mas cujas empresas se perderam?
De facto, assistimos a um período tendencialmente revivalista em que as pessoas voltaram a olhar com interesse para as antigas empresas e para as suas marcas históricas. Aproveitando esta tendência, faz todo o sentido a recolha, registo e preservação das suas memórias industriais através de publicações como esta. Os testemunhos, histórias e documentos “fotográficos” são de interesse colectivo e devem ser partilhados. Existem muitas empresas com potencial interesse para estudo a este nível, dando, desta forma, resposta a essa procura cada vez maior.
Há interesse do público em percorrer estas memórias?
Neste caso em particular, e partindo do pressuposto de que existem várias gerações de trabalhadores da Oliva esse interesse torna-se maior. No caso das gerações mais novas existe a curiosidade de conhecer “por dentro” a empresa que muitos só conhecem de histórias. A opção de álbum ilustrado é justificada precisamente por essa necessidade de se conhecer visualmente a empresa.
Este livro é o resultado de uma pesquisa de anos…
Desde sempre tive interesse por este tipo de temáticas industriais e pelas marcas históricas. Nos anos 90 iniciei a recolha de materiais gráficos dessas empresas, em especial da Oliva, e culminou com uma dissertação de mestrado intitulada «Design de embalagens de produtos portugueses dos anos 30 e 40 do séc. XX».
Como se sentiu ao ver o seu livro ser destacado por Marcelo Rebelo de Sousa no seu espaço aos domingos no telejornal da TVI?
Fiquei bastante satisfeito, por um lado, pelo reconhecimento do trabalho desenvolvido e, por outro, pela visibilidade que proporcionou ao livro e ao projecto de Turismo Industrial de S. João da Madeira.
Este livro insere-se aliás no projecto de Turismo Industrial promovido pela Câmara Municipal de S. João da Madeira. Um município recente como o sanjoanense, que tem uma forte tradição industrial, deve apostar na arqueologia industrial como área diferenciadora?
Atendendo às características, históricas, económicas e culturais de S. João da Madeira, a aposta num projecto como o do Turismo Industrial é muito acertada. É uma vertente do turismo inovadora em Portugal e que tem muitos seguidores no estrangeiro e, em breve, esperemos, também no nosso país. Tal como referiu o presidente Castro de Almeida na sessão de apresentação do projecto, existem muitas pessoas que não se importariam de “perder” uma tarde de férias a visitar uma empresa e essa oferta está agora disponível e é de facto diferenciadora.
Entre os seus projectos futuros, há alguma empresa sanjoanense cuja história gostaria de retratar?
Tenho particular interesse pela investigação na vertente do design gráfico das marcas e empresas mais antigas e não propriamente pela enumeração cronológica de acontecimentos e aspectos da sua história. Naturalmente que existem empresas em S. João da Madeira com história e espólio documental que justificam trabalhos como o da Oliva. As empresas aderentes ao projecto do Turismo Industrial são disso exemplo.
Foi responsável por um ciclo de exposições retrospectivas de marcas e empresas portuguesas sobre as quais voltámos a ouvir falar bastante nos últimos tempos, como as sanjoanenses Oliva e Viarco, ou outras da nossa história, como a Saboaria e Perfumaria Confiança e Ach. Brito/ Claus. O made in Portugal está na moda?
Como já tive oportunidade de referir, assistimos a um crescente interesse sobre as empresas portuguesas, principalmente as centenárias, e nos seus produtos e marcas históricas. Muito se deve ao trabalho de divulgação de investigadores destas temáticas, como o designer Carlos Rocha e da jornalista e empresária Catarina Portas. Numa época de crise, é fundamental que se olhe para os nossos produtos com particular atenção e se façam escolhas com o coração.
Nessa perspectiva, tenho contribuído com a organização de algumas exposições retrospectivas realizadas no ISVOUGA e que ajudam a divulgar alguns produtos genuinamente portugueses.
Opinião de dois ex-trabalhadores
As memórias vivas da Oliva
Perante um livro que abriga as memórias da Oliva, ‘O Regional’ ouviu também dois ex-trabalhadores que guardam consigo as memórias vivas desta empresa.
Ambos conhecem o livro da autoria de Paulo Marcelo e guardam-no com especial carinho.
Jorge Simão entrou para a Oliva em 1973 como apontador, tendo depois passado para a mecanografia e deixou a empresa em 1985. Mas as suas memórias desta empresa são bem anteriores, pois era aos seus armazéns que “ia buscar fogões para o Zé do Vário”. Vê no livro «Oliva – Memórias de Uma Marca Portuguesa» uma “recordação dos tempos da infância e emprego”.
“Com este livro surgem muitas memórias e através das fotografias e textos explicam-nos como começou a Oliva, desde a zona 1 até à construção da zona 2 e toda a sua evolução”, descreveu, ao destacar que foi através desta obra que conheceu a “parte nova das cozinhas industriais”, criada depois da sua saída.
“É uma saudade quando se vê este livro. A Oliva tinha regalias que nem o Estado dava, era a cooperativa, o Centro, o desporto”, recorda com saudade Jorge Simão, manifestando a tristeza pelo declínio da empresa. ”Dá pena”, confessa, referindo-se também ao “estado de degradação do edifício”, manifestando-se, no entanto, “ansioso por ver como tudo vai ficar, quando as obras da Câmara terminarem”.
Foi também como apontador que Alberto Tavares entrou para a Oliva no ano de 1970. Nove anos depois passou para a contabilidade e deixou a empresa em 1986.
Quanto ao livro «Oliva – Memórias de Uma Marca Portuguesa», atribui-lhe “muita importância”, dado que “foca, através de fotografias, um conjunto de papéis e panfletos o que foi a Oliva”. “Retrata o que é que a Oliva foi”, aponta.
Através do livro, Alberto Tavares ficou também a conhecer pedaços da história da empresa que não conheceu. “Fui para a Oliva aos 16 anos e talvez aquilo que melhor recordo seja a parte das máquinas de costura”, uma “área enorme” que este ex-trabalhador recorda sublinhando que, na sua opinião, “foram as máquinas de costura que fizeram crescer a empresa e o seu nome ser reconhecido em todo o país”.
Alberto Tavares destaca também o facto do livro ser da autoria de um “filho de um ex-trabalhador da Oliva”, que, “interessando-se por esta empresa, mostra o alcance da história da Oliva”.
“É um livro que todos os ex-trabalhadores deveriam ter”, afiança.
Tendo entrado na empresa quando esta estava “no seu auge e tinha sido vendida à ITT, passando a ter gestão americana”, Alberto Tavares recorda que, “depois deixaram de produzir as máquinas de costura, que ninguém fabricava como as da Oliva”, e diz-se convencido que é “a partir do 25 de Abril que começa o declínio”.
“Após 85 anos a Oliva fechou e isso traz-me muita tristeza”.
Alberto Tavares defende que, “olhando à empresa que foi e à marca que deixou, todo o património edificado, mas também fotos, memórias descritivas, documentos deveriam ser preservados”. E acrescenta ainda que “a Câmara Municipal de S. João da Madeira deve liderar esse processo, recolhendo tudo o que for possível e requalificar os edifícios, como já está a fazer”.


