Cenas da Vida
Acertar o passo
26-01-2012 | por Ricardo Stockler
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Numa terra, em grande parte, dedicada à indústria do calçado, todos nós devemos dar natural atenção aos sapatos. Mas também, cuidado! Não há que descurar os pés.
 Ora, desde a mais alta Antiguidade, os pés tiveram sempre profundo significado. Por isso, ficou na História o dito de termos de entrar nas coisas sempre “com o pé direito”.
 A origem desta superstição vem do tempo dos romanos. Eles tinham profunda aversão a tudo o que fosse esquerdo. Preferiam sempre o lado direito. Como justificação da sua preferência, deixaram na História explicação curiosa. O lado direito é sempre o lado racional. Razão: está isento de emoções perigosas. Pelo contrário, o lado esquerdo é sempre emocional. Lógica: fica do lado do coração. Nesta aversão pelo lado esquerdo é de notar o seguinte.
Em latim, esquerdo diz-se simplesmente “sinister (sinistrum)”.
Mas este vocábulo, com o rodar dos tempos, modificou-se. Acumulou, pouco a pouco, enorme peso de sentido pernicioso e negativo. Veio a dar “sinistro”. Toda a gente o conhece.
Por conseguinte, entrar numa casa com o pé direito era bom augúrio. Uma espécie de garantia de sucesso no que se ia dizer ou fazer.
Os romanos acreditavam nisto piamente. De tal maneira que mantinham guardas especiais às portas dos mais importantes edifícios públicos. Missão específica: verificar precisamente se as pessoas entravam com o pé direito ou não.
Eu acho a ideia engenhosa. Seria para nós muito salutar se, à entrada do Forum Municipal, tivéssemos um funcionário devidamente fardado, com idêntica missão. Ver se realmente toda a gente entrava no edifício com o pé direito.
Caso alguém fosse a entrar com o pé esquerdo, era imediatamente advertido da seguinte maneira: “V. Exa. tenha a bondade de recuar seis passos. Parece-me que não reparou que ia a entrar no edifício com o pé esquerdo. Ora, lá dentro, os deuses podem não gostar disso. Não se tornam propícios a gente que entra assim. V. Exa., portanto, arrisca-se a ver ir por água abaixo a papelada que vem cá trazer. Será, portanto, melhor dar seis passos para trás e tentar de novo. Mas agora com o passo trocado”.
Todos nós recuaríamos então. Faríamos peito. Corrigíamos o pé. Acertávamos o passo. E toca a entrar então mais confiantes.
Exactamente! Assim, sim. Entrar com o pé direito. É isso mesmo que é preciso. Acertar o passo. Avançarmos seguros e confiantes, durante o novo ano, em tudo o que diga respeito às coisas da nossa terra. Eis o lema ou preocupação que decerto agradaria aos romanos. Mas também nos deve agradar a todos nós, se queremos que S. João da Madeira continue em firme movimento na senda do progresso.

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