Ataúlfo Simão
16-06-2011 | por Josias Gil
Na extremidade da vida, o poeta torna-se eterno
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Ataúlfo Simão, poeta, músico, amigo, mais do que homem bom da cidade, era um homem bondoso. Com voz meiga, as palavras saíam-lhe sorrindo, como ramos de flores alegrando uma casa.

“Tantos anos já passados
Estamos a chegar ao fim
Muitos deles recordados
No viver é sempre assim”


Versos dos 90 anos, em 23 de Outubro de 2009; palavras simples do poeta da recordação, prenúncio do dia da tristeza absoluta em que nos deixou um definitivo adeus, ao início da tarde de 13 de Junho de 2011.
Afetivo, carinhoso, sempre vibrante com as suas cidades – Celorico da Beira e S. João da Madeira – com a sua casa, a sua família e os seus amigos, no mesmo poema disse: “Noventa anos é obra/ Só me resta pequena sobra/ P’ra cumprir minha missão” e cumpriu. Sempre ofertou, nas palavras, a intemporalidade da memória coletiva a muitos dos pequenos e grandes factos do quotidiano.  Com versos, salvava-os da voragem do tempo, ganhando ele próprio esse dom, não só pelas suas palavras mas sobretudo pela doce e exemplar presença na comunidade, que sempre o recordará.
Quando em 1975, desenfreada, a turba assaltou a sede de um partido de esquerda, por baixo do andar onde vivia, invadiram-lhe a casa e levaram-lhe o clarinete, com que desde novo animara as bandas de música de Celorico e de S. João. Com o desgosto, nunca mais tocou… Desde então, transferiu a música para a poesia e a cada cerimónia, a cada evento, a cada circunstância de relevo, apresentava-se pedindo, com a sua enternecedora delicadeza, para ler o texto adequado ao momento, ou à personalidade que desejava distinguir. Colocava os óculos e lia com o prazer de um solista, tocando para o público fiel.
Era o mais jovem do Clube dos Poetas Vivos, pelo entusiasmo com que comparecia e trocava leituras de viva voz com os miúdos de Fundo de Vila, hoje adultos, que certamente guardam com carinho a memória de um homem alegre e afável que lhes lia poemas, à noite, na última sexta feira de cada mês, na biblioteca.
Quatro anos antes de eu nascer, chegou à minha terra e conseguiu proporcionar-me um gosto especial em frequentar a barbearia. Em criança, no Salão S. João, sorrindo, acomodava-me na cadeira, cortava-me o cabelo e conversava. Mais tarde, vi no seu sentido de justiça e solidariedade um referencial de participação cívica. Nos seus versos, um cronista da cidade. Na sua ação, um paladino da democracia, um humanista.
Era de facto um homem de missão, sempre presente; e nos derradeiros esforços dessa presença, mais uma vez se aproximou dos amigos, fazendo-lhes chegar o seu último livro e a revista da homenagem com que foi distinguido por um dos seus grandes amores: Celorico da Beira, onde nasceu. Despediu-se com a digna humanidade, apanágio dos homens que tornam o mundo mais feliz e nunca morrem.
Até sempre, Ataúlfo Simão, as lágrimas choram de tristeza pela partida e de alegria pela bondade da sua eterna presença.
‘O Regional’ apresenta a toda a família em luto, especialmente a sua esposa e filhos, as mais sentidas condolências.

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