Conto de Natal
22-12-2016 | por Ricardo Stockler
Estatísticas

1178 Visualizações

Outras Acções
Comentar Imprimir Aumentar Diminuir Restaurar

Há muitos anos, nasceu no lugar das Corgas, menino pobre. Muito inteligente. Deram-lhe o nome de João.
O menino foi crescendo. Mas era causa de embaraço. Porque se aproximava das pessoas. Fazia perguntas complicadas. Adorava estar ao corrente de coisas difíceis de saber.
Ora, um dia, já era grande, olhou para os astros. Viu o céu. E teve súbita ideia. “Pois é! O Sr. Padre diz que Deus fala. A mim nunca falou. Porquê? Qual será a língua que Deus fala? Quando souber, eu aprendo-a, logo. E ponho-me em contacto com ele. Havemos de nos entender”. Mal chegou a casa, fez a pergunta aos pais. Mas eles disseram que
tivesse juízo. Aquilo era pergunta muito difícil. Não sabiam.
O João correu a informar-se junto de pessoas mais letradas. Padres. Professores. Pessoas gradas cá da terra.  Mas quê? Uns coçavam a cabeça. Punham rosto sizudo. Por fim, confessavam. Questão intrincada! Francamente. Não sabiam.
O João ia crescendo. E sempre, sempre aquela pergunta no peito “Qual será a língua que Deus fala?”
Até que um dia tomou radical decisão. Chegou a casa. Fez uma trouxa da roupa. Disse aos pais: “Vou pelo mundo. Só voltarei quando tiver resposta certa à minha pergunta:
Que língua é que Deus fala?”  E lá se foi. Atravessou a Espanha. A França. A Itália. Esteve com grandes e pequenos. Ricos e pobres. Sábios e ignorantes. A todos fez, inquieto e curioso, a pergunta indecifrável.
As pessoas reagiam diferentemente. Mas sempre pela negativa. Uns abriam a boca e os olhos, num mar de espanto. “Que pergunta difícil e invulgar!” Punham a mão no queixo. Muito calados. A reflectir. Mas quê? Nada. Não sabiam.
Outros procuravam ocultar a ignorância. Escorraçavam logo. “Fora, vagabundo! Chô! Chô! Isso não é pergunta que se faça”.  Mas era sim, senhor! Eles é que não sabiam. E João andava triste. Triste. Por esse mundo fora.
Até que um dia teve ideia luminosa. “Já sei onde posso obter resposta certa. Muito fácil. Em Belém. Precisamente no local, onde Jesus nasceu. Ali, sim! Cristão ocidental, ou ortodoxo tem de saber que língua é que Deus fala”-
Todo animado, meteu pés ao caminho. Percorreu terras estranhas. Vastíssimas regiões. Atravessou cidades e desertos. Até que, finalmente! Entrou em Israel.
Era Dezembro. Havia intenso movimento nas estradas. Muitíssimos automóveis. Numerosas excursões. Autocarros. Comboios. Peregrinos, Multidões. Enfim, um cordão muito grosso de pessoas do Oriente o do Ocidente. Tudo a caminho da Basílica da Natividade, em Belém.
O Natal era dentro de dias. Toda a gente se dirigia para lá.  Quando João chegou, era precisamente a noite de Natal. Os hotéis estavam cheios. Não apenas, os grandes hotéis americanos. O Hilton, O Continental. O Sheraton. Não, senhor. Também, os hotéis mais modestos. As pensões. Estalagens. Albergues e coisas tais. Todos, completamente cheios. Com idêntico, aviso colado na porta: “Fully booked”. O mesmo é dizer, quase a abarrotar. Exactamente, o que aconteceu no tempo de Jesus. E exactamente como então João viu-se privado de todo e qualquer quarto ou mansarda. Poiso provisório. Só, para dormir.
Teve de se contentar em fazer o que os peregrinos mais pobres faziam. Passar a noite numa gruta de pastores que por lá há. Assim foi. Encontrou então uma gruta funda e feia que servia para abrigar animais. Humilde? Desconfortável? Que importa? Para passar a noite, bem servia. E serviu, Porque, mal o João pôs o pé dentro, viu que havia já pessoas lá no fundo. A gruta encontrava-se habitada. Por uma mulher. Pelo marido. E um Menino, acabado de nascer. Ao mesmo tempo, ouviu a voz muito doce da Senhora que dizia: “Anda, João! Vá lá. Chegaste a tempo. Estamos aqui à tua espera. Queres saber a língua que Deus fala? Toma nota. É esta. A língua do Amor!”  E apontava com ternura para o Menino, O maroto ria. Ria. Sabem porquê? Porque, desde o início, - vejam lá ele tinha achado imensa  graça à pergunta do João.

 

Comentar

Anónimo