
Durante décadas inacessível fora da esfera institucional, o arquivo da RTP é agora o ponto de partida de uma exposição que revisita criticamente a história da programação cultural da televisão pública, patente no Centro de Arte Oliva.
A exposição “Zapping: Televisão como cultura e contracultura” chega ao Centro de Arte Oliva, em São João da Madeira, entre 7 de fevereiro e 28 de junho, depois de vários anos condicionada pelas limitações de acesso ao arquivo da RTP. O projeto cruza programas culturais da estação pública com obras de artistas nacionais e internacionais e estende-se a Guimarães, Braga e Elvas.
O projeto resulta de uma ideia antiga da curadora Paula Pinto, cuja concretização foi adiada durante vários anos devido às restrições impostas no acesso ao arquivo da estação pública. “As dificuldades aos conteúdos do arquivo da estação pública da Rádio Televisão Portuguesa impossibilitaram a organização até ao momento, de exposições sobre a extraordinária história deste meio de comunicação social, que não fossem realizadas pela própria RTP ou, por exemplo, pelo Museu das Comunicações”, explicou a O Regional.
Segundo a curadora, o cenário começou a alterar-se com o investimento recente da própria RTP na organização do seu acervo. “Só a partir do investimento que a própria RTP começou a fazer no sentido de documentar, preservar e disponibilizar o seu acervo de programas televisivos, é possível investigar e pensar os seus conteúdos”, afirmou, sublinhando tratar-se de “um enorme passo e de um investimento que a televisão portuguesa tinha de se propor fazer por si mesma”.
Paula Pinto refere que os resultados desse investimento começaram recentemente a tornar-se visíveis. “Estamos num período em que os frutos desse investimento e do respetivo trabalho estão publicamente disponibilizados. Literalmente todos os dias, há mais conteúdos a serem disponibilizados online. Quando começámos a fazer esta investigação, há dois anos, os conteúdos disponibilizados eram incomensuravelmente menores”.
A concretização da exposição exigiu ainda abertura institucional e financiamento público. “Para que esta exposição surgisse, foi preciso o interesse de uma instituição cultural. A abertura institucional a proposições externas é igualmente muito limitada, especialmente no caso de uma investigação e exposição que requerem investimento”, afirmou.
“Há muito estudo por fazer e não cabe apenas à RTP”
Apesar dos avanços, o acesso ao arquivo da RTP continua condicionado. “Neste momento alguns conteúdos estão já disponibilizados publicamente. Outros, claramente selecionados, não estão ainda disponíveis”, explicou, defendendo que o estudo da televisão não deve ficar circunscrito à estação pública. “Há muito estudo por fazer e não cabe apenas à RTP fazê-lo”, enfatiza.
No caso concreto da exposição, o acesso concedido foi limitado. “Para esta exposição, a RTP disponibilizou-nos 40 minutos de emissão, o que por um lado é bastante, mas por outro não permite quase colocar um único programa completo em exposição, muito menos estabelecer um diálogo entre programas”. Foram selecionados cerca de 40 programas, permitindo apresentar uma média de um minuto por programa, sublinhando que “não se pode mostrar televisão sem a poder disponibilizar em sala”.
A curadora reconhece igualmente as dificuldades da RTP em controlar os usos feitos por terceiros. “Do ponto de vista da RTP imagino que seja extremamente difícil controlar os usos que terceiros possam fazer dos programas”, afirmou, notando que “tecnologias como a inteligência artificial já o podem fazer”, embora considere que “a disponibilidade intelectual para as pensar e o esforço para concretizar uma exposição são ainda tremendamente lentos”.
As questões ligadas aos direitos de autor continuam a condicionar a investigação e a criação artística a partir do arquivo televisivo. “Os valores económicos e políticos continuam aceleradamente a ser protegidos, e legalmente protegidos, enquanto a capacidade intelectual e criativa está absolutamente desprotegida e, nesse sentido, continua a ser profundamente reprimida”, afirmou, considerando tratar-se de “quase um contrassenso”.
A pandemia marcou também um ponto de viragem na disponibilização de conteúdos online e no trabalho de investigadores e curadores. “Quando se é investigador, é indispensável podermos tropeçar em conteúdos que desconhecemos e poder relacionar diferentes materiais”, afirmou, sublinhando que “na pandemia foi o caos total”. A internet veio alterar esse cenário, embora de forma dependente do financiamento público. “São as políticas e os fundos da comunidade europeia que estão a permitir que isto aconteça, com direto acesso público. Espero que o livre acesso não venha a ser retirado no futuro”.
A exposição aborda ainda a televisão como fenómeno sociotécnico, cultural e político, partindo da constatação de que um determinado modo de consumo televisivo desapareceu. “A exposição parte do pressuposto que um certo modo de consumir televisão, em que a programação era efémera e síncrona, ou seja, chegava a toda a gente ao mesmo tempo, acabou”, afirmou Paula Pinto, acrescentando que “a sincronia pública desapareceu”.
Neste contexto, a curadora defende que a produção, a disponibilização e o consumo de conteúdos devem ser regulados e debatidos publicamente, alertando para as implicações democráticas dessas escolhas.
Ir para o conteúdo

