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Arquivo: Edição de 15-09-2007

SECÇÃO: Educação

Excesso de peso das mochilas é um problema grave

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Mais de metade das crianças portuguesas dos 5.º e 6.º anos andam com mochilas demasiado pesadas às costas. Há muito que a Deco alertou para este problema, que pode trazer no futuro consequências graves. No arranque de mais um ano lectivo, a nossa reportagem foi ouvir Juliana Wieczorek Ducatti, Fisioterapeuta com especialidade na área da Reeducação Postural Global (RPG) que nos falou desta problemática e da Reeducação Postural Global. Esta terapia começa a dar respostas convincentes aos problemas de saúde que se prendem com a postura corporal, já que os alunos transportam regularmente mochilas com peso a mais e podem desenvolver lesões ao nível do ossos e dos músculos.
Jornal “O Regional” - Especialistas afirmam que as crianças que carregam mochilas muito pesadas correm o risco de sentir dores nas costas, além de desenvolver uma postura incorrecta. Na sua opinião, tem-se verificado um aumento de desvios na coluna vertebral dos jovens?

Juliana Wieczorek Ducatti – Sim, os problemas têm vindo a aumentar.  Isto deve-se a vários factores, mas o principal são as mochilas, extremamente pesadas, além do seu uso incorrecto.

Mas existem outras situações que agravam o problema…
Há outras agravantes pouco mencionadas, mas que contribuem para este problema, como carteiras altas ou demasiado baixas, a distância entre a cadeira e mesa na hora de escrever, a posição do caderno ao  escrever, além da postura do aluno na sala de aula, ao apoiar o queixo na mão ou quando deita a cabeça sobre a mesa.

O peso das mochilas chega a ser assustador. Que marcas pode deixar?
O excesso de peso das mochilas é um problema grave que, além de dores nas costas, tem consequências irreversíveis a longo prazo para crianças, como criarem lombalgias, dorsalgias, cervicalgias, hipercifose (corcunda) e, ainda pior, a escoliose idiopática infantil que, mesmo sendo congénita, pode ser agravada por estes maus hábitos, a artrose precoce e má postura.

E as mesas de trabalho dos alunos nas escolas?
A altura dos móveis da escola é outro factor que agrava o problema de dores nas costas. O mobiliário escolar exige adequação, pois não atende a todos os alunos. Algumas adequações, tais como o uso de prancheta, com inclinação de 5 graus, em caso de mesas horizontais. Quando o tampo da mesa é direito, a criança tem que ficar com a cabeça para cima, o que acaba ocasionando dor no pescoço e futuros problema de coluna.

Que conselhos deixa para criar situações “de melhor saúde” neste campo?
Como referi, outro problema para a postura é o tamanho das cadeiras e mesas, seja na escola ou em casa. Para não afectar a coluna, a cadeira deve ter 1/3 da altura da criança e a mesa metade da altura da criança. Caso o mobiliário não seja regulável, pode-se, por exemplo, colocar uma almofada para nivelar a altura da criança. O importante é que o quadril, joelho e tornozelo estejam em ângulo recto de 90.º, ou seja, o pé deve estar colocado no chão, repousado, nem para baixo e nem para cima. A posição do caderno deve ser sempre alinhado com o corpo e a mesa: sendo assim, a escrita passa a ser horizontal e nunca vertical, como acontece muitas vezes.  
 
Quais as idades mais afectadas?
 Todos os alunos, crianças, adolescentes ou adultos, são afectados. Mas, sem dúvida, as crianças são as mais prejudicadas, pois estão numa fase de crescimento ósseo, desenvolvimento articular e muscular. O uso contínuo de mochilas pesadas em crianças em crescimento podem levar a outras consequências como dor e até deformação.

Sente que os professores estão sensibilizados para que seja pedido só o material necessário para as aulas?
 Essa questão tem que ser resolvida pelos alunos, pais, escola e profissionais do ensino.  Deve sempre existir bom senso. As escolas poderiam formular os horários do modo a diminuir a quantidade de matérias. Aos  pais cabe a fiscalização e orientação, como verificarem as mochilas para que os seus educandos não levem material a mais, além da atitude pedagógica de explicarem os problemas que podem ter quando adultos.
 
Há outras alternativas ao uso das “inseparáveis” pastas e mochilas?
Outra alternativa é  usar ficheiro, ao invés de cadernos, e levar somente um bloco de folhas para as aulas.
Se o material pedido é indispensável, vamos fazer da melhor forma possível. As mochilas devem ser sempre apoiadas nos dois ombros. Assim, há uma distribuição mais homogénea do peso sobre os ombros e a coluna. Já mochilas com rodas são uma excelente opção para os mais novos pois, desta forma, eles não carregam peso.
Porém, sinto que, de uma forma geral, existe ainda pouca colaboração. Alguns profissionais da saúde dão pouca importância aos problemas e não orientam as partes intervenientes no processo.
Como em tudo, é sempre melhor prevenir do que remediar um problema.  
 
 
O peso máximo da mochila não deve exceder, segundo os responsáveis, os 10% do peso do aluno. Que patologias podem estas crianças vir a sofrer em adultos?
Problemas como  lombalgias, dorsalgias, “formigamento” dos membros superiores, disfunções visuais, escoliose, entre outras.

Existem muitas crianças em S. João da Madeira com desvios de coluna, vítimas do peso diário das mochilas?
Existem ainda muitas crianças em todo país com problemas posturais. A informação é pouca e a orientação é ainda menor.  
  
Existe algum tipo de mochila ideal?
Posso apontar aquelas que têm como características:
- 2 alças largas e acolchoadas sobre os ombros;
- Um cinto acolchoado na cintura, ou no tórax, para distribuir o peso mais uniformemente através do corpo;
- Compartimentos múltiplos para distribuir a carga de peso.
- A largura da mochila não deve ser maior do que a do dorso da criança;
- Nas mochilas com rodas é preciso cuidado com a alça do carrinho, que deve estar a uma altura apropriada. As costas da criança devem estar direitas ao puxá-la.  

 
No seu entender, as mochilas também são mal utilizadas? Por exemplo, são carregadas apenas num dos lados, quando deveriam ser nos dois ombros...
 Uma criança que usa a mochila sobre um dos ombros pode inclinar-se para o lado, para compensar a carga, pois é desta forma que ela alivia o peso. E, neste caso, poderá desenvolver dores na região do pescoço e na região superior das costas ou escolioses. Já as mochilas com alças compridas agravam os problemas lombares, devido ao contrapeso que terão que fazer para não cair para trás, inclinando o corpo para frente.
 
Que tipo de tratamento é feito para correcção nestes casos?
O principal tratamento inicial é a mudança dos maus hábitos. Há necessidade de actividades físicas, como natação, yoga para crianças e alongamentos. Caso o problema não seja resolvido, o ideal é procurar um profissional qualificado para solucionar o problema. Inicialmente, temos uma abordagem médica e depois um tratamento de fisioterapia. Neste caso, a melhor técnica no mercado para a postura é a Reeducação Postural Global, que tem como objectivo criar novos hábitos posturais saudáveis.
 
No seu entender, a não correcção de “desvios” pode trazer, no futuro, problemas sérios?
 O excesso de peso que muitas crianças carregam na fase escolar traz patologias que, com o passar dos anos, se tornam difíceis de serem tratadas. Adoptar hábitos saudáveis evita graves problemas na fase adulta.  
Os problemas futuros são vários, e podem passar pela hiperlodose, hipercifose, hérnias, escolioses, artroses, disfunções visuais, problema motores e tantos outros a que importa estar muito atento.

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