Arquivo: Edição de 24-09-2005
SECÇÃO: Local | ||||||
“As pessoas cada vez mais devem prestar atenção aos direitos, não só do Homem, mas também dos animais” O jeito para o desenho, esse, nasceu com ele. No entanto já lá vão 20 anos, desde o período em que um curso de estilismo era algo que não se idealizava no nosso país, muito menos se punha em prática, mas que levou o estilista a fomentar o seu futuro no mundo da moda. Em entrevista ao jornal “O Regional”, Miguel Vieira, um profissional da moda, com nome reconhecido além-mar, falou do curso que tirou na área de Controlo de Qualidade no Instituto de Engenharia do Porto, do seu sucesso, entre muitas outras questões, mas essencialmente, e foi por este motivo que se deslocou até às instalações da Aanifiera, uma associação sem fins lucrativos, que visa a protecção, recolha, adopção e albergue dos amigos de 4 patas, sedeada em Mosteirô, deixou bem clara a sua inequívoca sensibilidade para com um tema de vital importância, como é o do abandono e maus-tratos dos animais. A sua imagem foi cedida como uma mais valia, com intuito de fazer chegar uma mensagem que possa fazer reflectir aqueles que por as mais variadas razões ainda o não fizeram. O Regional – Como surgiu a ideia de aliar o seu nome a esta Campanha da Aanifeira? Miguel Vieira – Surgiu de um convite que recebi por parte de duas voluntárias desta instituição, a Ângela e Conceição Quaresma, ao qual eu próprio dei o “sim”. Apesar de ter um Gabinete de Imprensa que trata destas questões. Neste caso especifico fui eu que dei o “ok”, por ser uma situação que ocorre perto da minha região, São João da Madeira, porque, embora as pessoas pensem que eu vivo em Lisboa, é mentira, moro e trabalho nesta cidade. Aliás, ao longo dos anos tenho-me ligado a associações deste género. A revista “Caras”, todos os anos no verão, atribui-me, assim como a alguns colegas, a tarefa de fazer uma determinada peça. Este ano incidiu numa bolsa, e ao invés de colocar a imagem de uma mulher deitada ao sol, optei por um desenho e uma fotografia da “Maria”, a minha cadela, e do “Bernardo”, o meu gato, como forma de transmitir a mensagem do não abandono de animais, que acontece com mais frequência no período de férias.Teve uma enorme repercussão, tendo-se esgotado todas as bolsas no país inteiro. Vejo fundamentalmente que as pessoas têm que ser educadas, desde a parte governamental ao próprio cidadão comum. As pessoas cada vez mais devem começar a prestar atenção aos direitos, não só do Homem, mas também dos animais. Qual o seu comentário a um tema que cada vez mais é do conhecimento público – luta de cães? Prefiro não assistir a esse tipo de situações. Se estiver a ver televisão e aparecer algo do género, simplesmente mudo de canal. Considero que deveriam existir fortes sanções para todos aqueles que se envolvem nestas questões. A Aanifeira, como é do conhecimento geral, é uma associação sem fins lucrativos, com enormes dificuldades, que rema diariamente contra a maré. Que mensagem deixaria no sentido de haver uma maior ajuda e de uma forma mais célere? Num próximo domingo ou sábado, se tem uma hora livre, em vez de fazer compras, dar um passeio pelo shopping, dê um salto até às instalações da Aanifeira, em Mosteirô, Santa Maria da Feira e veja a triste realidade destes animais e tente compreender melhor toda esta situação e daí tirar ilações da melhor maneira. Há muitas pessoas que abdicam parte da sua vida em prol destas iniciativas, muitas associações que não têm fins lucrativos e que apenas visam a ajuda aos animais, para que, no fundo, tudo corra pelo melhor. Por tudo isso, perco o meu tempo a colaborar. Naquela altura não existiam cursos de estilismo cá em Portugal, havia uma pioneira que era Ana Salazar, que também não tinha curso… Na altura estava eu a estudar no Instituto Superior de Engenharia do Porto, escolhi a área têxtil e formei-me em Controlo de Qualidade Têxtil e, como tinha um certo jeito para desenhar,… já lá vão 20 anos. Na altura achava uma certa graça à parte que dizia respeito à moda, uma certa tristeza em não encontrar peças de que gostasse, no nosso país, e achei que seria importante seguir uma carreira desse género. Sente-se acarinhado pelos portugueses? Sinto-me muito, mas muito querido pelos portugueses… Aliás não queria referir um assunto que já esqueci, mas, quando tive uma doença complicada, senti um apoio, uma força tão grande, de tanta gente em Portugal, a mandar-me cartas, a telefonar, etc, que aí percebi que não era mais um que estava em Portugal, que tinha muito carinho dos portugueses. Qual o segredo de tanto sucesso? Em primeiro lugar, há um empenho total na minha actividade. Ao contrário de muitas pessoas pensarem que passo o meu tempo em festas, é tudo mentira. Aliás, este verão, saí duas vezes à noite e apareceram milhões de fotografias que levaram as pessoas a pensar que dedico muito do meu tempo a festas, o que não é verdade. É sobretudo muito empenho da minha parte e uma equipa fantástica que me apoia, de óptimos profissionais que me acompanham, em várias áreas, que culmina no sucesso obtido. São João da Madeira é uma região muito conhecida no que diz respeito ao fabrico de calçado e sendo o Miguel Vieira de cá porque não uma dedicação maior nessa área? Um criador de moda é alguém que faz roupa…e a minha ideia sempre foi vestir as mulheres e os homens dos pés à cabeça e então passei aos desfiles. Obviamente que uma coisa que queria muito era ter a parte de calçado, ou seja fazer um desfile e não depender de ninguém, em termos de acessorização e neste momento apenas dependo da parte de maquilhagem, única e exclusivamente, mas já lancei colecções de roupa, jóias, óculos, sapatos…no fundo são 15 produtos diferentes. O preto é uma cor preferida do Miguel Vieira. Há um motivo especial para isso? Não. Acho que a pessoa fica sempre muito elegante com o preto e, depois, há algo muito engraçado que a maioria das pessoas não percebe e que eu saliento muitas vezes, que é por exemplo eu fazer um desfile com 80 coordenados, que são a camisa, o cinto, a calça, o sapato, a meia, etc, tudo em preto, é um exercício de criatividade muitíssimo grande, um enorme esforço. Fazer um desfile só a preto obriga-nos a um exercício muito maior. Tendências para a moda Outono/Inverno 2005/2006? As minhas cores que apresentei em Portugal, Paris e Barcelona, são o rosa velho, o lavanda, misturado com preto, uma silhueta cingida ao corpo e materiais muitíssimo nobres, para além de acabamentos óptimos, que é o que tento obter nas minhas colecções. Como vai a moda em Portugal? Vai bem, recomenda-se. Neste momento estamos a ficar com óptimos profissionais e, quando falo em moda, não me refiro apenas aos criadores, mas já existem óptimos estilistas, designers, gerentes de loja, cabeleireiros, maquilhadores, aderecistas, um sem número de profissões que nos envolvem e sobretudo estão a fazer uma coisa óptima que é lutar muito por duas cores que nós temos, que é o vermelho e o verde da nossa bandeira Portuguesa Tem algum cuidado especial com a alimentação? Não. Não tenho nenhum cuidado, hoje inclusive esqueci-me de almoçar, por exemplo. Não engordo coma o que comer. A sua agenda reserva algum encontro de moda para breve? No dia 22 de Setembro começa a Semana de Moda de Barcelona, onde vou me encontrar com os maiores criadores de moda do país vizinho. É um desfile que faço há 3 anos. Miguel Vieira considera que as pessoas ficam elegantes vestidas de preto, não tem cuidados com o que come e sente-se essencialmente feliz por acordar de manhã com saúde, poder ver o mar e fazer as outras pessoas felizes. Apesar de ter o cronómetro sempre a correr, até porque a sua presença na Barcelona Fashion Week exige demasiado, Miguel Vieira respondeu às questões sempre de uma forma simpática e sem pressas, sorrindo de uma forma cativante, quando o assunto assim o exigia. Não poderia deixar de mencionar a sua preocupação e ansiedade pelo estado de saúde da sua “Maria”, a amiga canina, que havia sido submetida a uma intervenção cirúrgica naquele dia. Miguel Vieira cedeu a sua imagem no sentido de fazer chegar uma mensagem de reflexão, de apelo à sensibilidade de todos, para que se consiga fazer emergir a boa vontade, a ajuda para com os animais, mas, acima de tudo mostrou ele próprio um carinho, uma generosidade impares para com aqueles a quem a sorte tem sido madrasta, os animais abandonados, tantas vezes perdidos num mundo-cão. Um grande profissional com uma vida preenchida, mas que nem por isso vacilou e ofereceu alguns dos seus minutos preciosos para provar que “Vale sempre a pena, quando a causa não é pequena”! Por:
Adília Matos Cardoso | ||||||